terça-feira, 4 de março de 2008


No dia 28 de fevereiro minha mãe completou 81 anos de idade. Nesse mesmo dia, em 1969, nos convertemos ao budismo Nitiren. Meu pai tinha 47 anos e minha mãe completava, naquele exato dia, 42 anos. Eu tinha quase 6 anos de idade. E lá se foram 39 anos.

Não me lembro de quase nada daquele dia.

Me recordo, daquela época, de meus pais sentados diante do Gohonzon, para o gongyo, e eu e meu irmão atrás, morrendo de rir, achando graça de tudo. Também me recordo de que sentávamos em nossos carrinhos de brinquedo para recitar o daimoku. Acho que o meu era preto, com alguns detalhes em vermelho... talvez fosse um carro de polícia, sei lá.... Os meus pais à frente, nós sentados atrás, em nossos brinquedos.

Tínhamos um bar, e morávamos nos fundos. Rua José Bonifácio, no quarteirão da frente do Mercado Municipal, bem no meio do baixadão. Diante do bar, na esquina com a rua São Sebastião, ficava o açougue dos irmãos Oranges que, na época, era o maior da cidade. Atrás, do outro lado do quarteirão, a Avenida Jerônimo Gonçalves. A rodoviária ainda não era ali - ela ficava onde hoje é um posto do Corpo de Bombeiros.

Do lado direito do bar ficava a loja do Sr Elias. Ele falava, mas não tinha voz, porque tinha um furo bem no meio da garganta (o que, para uma criança, era motivo de muita fantasia). Só bem depois fui saber do que se tratava: traqueostomia. Do outro lado não me recordo, mas sei que tinha a loja do Sr Nadim, que foi meu padrinho de batismo (sim, fui batizado!). Acho que foi dele que ganhei meu primeiro brinquedo (não sei se estou misturando as memórias, mas era uma locomotiva de trem, com bolinhas coloridas na chaminé).

Atravessando a rua tinha o Cantinho da Música, que está lá até hoje, no mesmo lugar. A Radio Lar também está lá, mas mudou de lado da rua. Já, a Casa Spanó, que vendia artigos de caça e pesca, não existe mais.

Ali nasci e cresci, na baixada da cidade, nos fundos de um bar.

A casa onde morávamos não era bem uma casa (afinal, os fundos de um bar...). E, não sei como, cabíamos todos lá. Meu pai, minha mãe e 8 irmãos em um cômodo de quarto, sala e cozinha. O banheiro era externo, e era o mesmo que servia ao bar, no fim do corredor. O banho só podia ser tomado depois que acabava o movimento do bar, e o chuveiro só tinha água fria. Caso contrário, o banho tinha que ser de bacia, no chão da cozinha. Não tínhamos vizinhos. Nossa casa não tinha cara de casa, não tinha frente de casa, não tinha porta de casa, não tinha janelas de casa. Entrávamos e saímos pela porta do bar. O chão era de assoalho de madeira e tinha por baixo um porão, onde as coisas viviam caindo e, por consequência, ficavam perdidas para sempre. Na minha infância, aquele porão era habitado por seres estranhíssimos.

Hoje sabemos mas, na época, nem imaginávamos como éramos pobres.

Ainda moleque, uma de minhas diversões era subir no muro da loja ao lado e, de lá, ganhar os telhados das lojas de onde, eu e meu irmão, secretamente de nossos pais, explorávamos o mundo. Não sei quantas telhas quebramos até aprender a andar por cima delas. E não posso negar: era uma delícia.

A parte da frente do bar tinha um balcão com alguns bancos e umas poucas mesas. Atrás tinha um salão com mais mesas e era lá, naquele salão, que as reuniões começaram a ser realizadas. As mesas eram afastadas, as cadeiras do bar arrumadas e estava tudo pronto para mais uma animada reunião.

E foram muitos e muitos encontros. Quanta gente por lá passou, em busca de alento, de esperança, de ouvidos, de palavras. Lá, no bar da minha infância, onde tudo começou. Um lugar que muita gente ainda carrega na memória. E que outras, mesmo sem terem lá estado e mesmo sem o saber, também carregam.

3 comentários:

Flor de Bela Alma disse...

Maurício...uma alma pura, amiga, companheira. Um menino criado na miséria e que fez disso sua riqueza. Um cara que nunca reclamou e nunca se vitimizou, nem fez disso alegoria.E é só uma vida bonita, uma história de amor e superação.Poucas pessoas tem o privilégio de te conhecer tão profundamente...e poucas também se surpreendem sempre.Muitas te mitificam, eu acho.Quanto a mim, acho que ainda tenho muito para desvendar... que você é um cara do bem, inteligente, culto, meigo e doce eu já sei.As pessoas tem muita razão em tê-lo como exemplo, pois vc mesmo não se acha exemplo de nada, apenas faz da vida uma experiência poética...já é muito!!Te amo!

Andrea Helena disse...

Muitas recordações me trazem esse bar, todas elas boas, acho que ainda me lembro de cada detalhe. Me lembro das reuniões, me lembro de montes de garrafas no estreito corredor. Me lembro da sensação boa, pois não entendia de pobreza em minha infância, mas podia sentir o calor daquele lugar, onde viveu meu pai, e viviam pessoas tão queridas, tão amadas. Adorava aquele lugar!

Anônimo disse...

Dizem que as lembranças compõem nossa identidade. Uma vida sem lembrança é uma história sem registro!! Como é bom recordar ... isso nos dá a direção de onde partirmos e para onde estamos indo. Acho que esse é o ponto primordial... Segundo Joseph Campbell, "Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivo, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivo."
com carinho Fernanda