sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Já faz um ano que ele se foi.

A primeira postagem neste blog é em sua homenagem: um homem que fez, de seus poucos recursos, uma fonte inesgatável de possibilidades.

Naquele domingo, 25 de fevereiro, eu estava longe, a 1.000 km de Ribeirão Preto. Recebi a notícia logo de manhã, pelo telefone do saguão do hotel. Eu já estava de saída.

A viagem de retorno só era possível à noite. O dia foi longo, mas não fiquei perturbado. Cumpri meu compromisso, almocei, fui ao cinema para matar o tempo (poucas coisas para se fazer numa cidade desconhecida num dia como aquele)... e subi no ônibus. Mais de 12 horas. Quando cheguei acho que já eram umas 09:00 horas da manhã. Estavam me esperando na rodoviária. Desci do ônibus e fomos direto ao velório. Cumprimentei, abracei e fui abraçado por muitas pessoas, mas eu queria mesmo era abraçar a minha mãe. Nem tive tempo de chorar por fora. Chorei só por dentro como, aliás, já tinha chorado durante a viagem. Subi na van que nos levou à São Paulo, ao Crematório da Vila Alpina. Lá foi a última cerimônia de despedida, que foi conduzida pelo sr. Taguchi. No final da cerimônia, ele me disse: "Seu pai cumpriu sua missão. Está com aspecto ótimo. Com 100% de certeza, ele atingiu a iluminação."

Uma semana depois, no dia 3 de março, realizamos a Cerimônia de 7o. dia em sua memória. Lá pude prestar minha última homenagem, com as seguintes palavras:

Não era fácil ser filho do sr. Sakamoto.

Não que ele fosse um pai difícil, mas a gente sempre quer corresponder às pessoas que admiramos. E, para além do pai, o sr. Sakamoto era um homem extraordinário. E, para além do homem, o sr. Sakamoto era um pai que, com orgulho, a gente dividia com inúmeras outras pessoas, que também o tinham como pai. Afinal, dizem que pai é quem cuida, ensina, protege, orienta e ama, incondicionalmente.

O sr. Sakamoto nasceu em 1921, em Osaka, região de Kansai, no Japão, no dia 18 de novembro. Curiosamente, 18 de novembro é a data de fundação da Soka Gakkai, esta associação para a qual ele dedicou a sua vida.

A Soka Gakkai foi fundada em 1930. Em 1930 0 sr. Sakamoto desembarcou no Brasil, de navio, vindo do Japão. Era dia 16 de abril. Porto de Santos. Navio Hawai Maru. Ele tinha 8 anos de idade. Veio com o pai, a mãe e um irmão. Seu pai - meu avô - morreu no mar, não chegou a desembarcar vivo na nova terra. Ao desembarcar sozinha com 2 filhos pequenos, sua mãe - minha avó - disse a eles, segurando suas mãos: "Fiquem tranquilos, a mamãe está aqui". Não a conheci. Deve ter sido também uma mulher extraordinária.

No mesmo navio veio também uma garota que, 16 anos depois, se tornaria sua esposa - minha mãe - também uma mulher maravilhosa. Tão pequena e tão grande. Em 60 anos de casados, foram 8 filhos, 11 netos, 4 bisnetos.

Retidão de caráter, simplicidade, honestidade, lealdade e, claro, coragem (do tipo que não é para muitos).

Com uma fina percepção no que diz respeito a pessoas, ele nem sempre dizia o que elas queriam ouvir, mas sim o que, na sua sensibilidade, precisavam ouvir. E, por trás de tudo, um grande afeto dentro de um grande coração, braços abertos, sempre recebendo e acolhendo as pessoas, sem reservas.

Saudade...

Ultimamente ele dizia: "O que mais posso querer da vida? Sou feliz e realizado! Posso partir tranquilo!"

Há um poema de Ralph Waldo Emerson, que diz: "O que é o sucesso? Rir frequentemente e muito; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a apreciação de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza; encontrar o que há de melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja através de um filho saudável, um jardim, ou uma condição social redimida; saber que ao menos uma vida pôde respirar melhor porque você viveu; isso é ser bem sucedido."

Ao nos despedirmos de você, ficamos todos tristes. Mas, não quis me despedir com lágrimas. Afinal, você não gostava de ver ninguém desanimado ou, como você dizia, com "cara de beringela murcha".

Quero me despedir aplaudindo a plenitude de sua vida. A plenitude de uma vida completa, de um homem bem sucedido.

Obrigado meu pai. Esteja tranquilo. À você, os meus aplausos.

A Cerimônia de 49o. dia de falecimento foi realizada no Palácio Memorial da Paz Eterna. Após a cerimônia, foi feito o depósito da urna com suas cinzas e o plantio de uma árvore com seu nome - um ipê amarelo - bem na alameda de entrada do prédio principal (o plantio de uma árvore é a maior homenagem concedida pela Soka Gakkai; simboliza a eternização da vida de uma pessoa).

5 comentários:

Flor de Bela Alma disse...

E todos os dias me dou por satisfeita por ter ao meu lado esse homem, filho de Sr.Sakamoto.Esse sujeito que veio para fazer diferença na minha vida e na de outras pessoas. Amo esse pequenino!!!Vc é meu porto seguro, minha paz e meu colo. Te amo!

Helio disse...

Que privilégio conhecer os Sakamoto... Adorei este blog, escrito com o coração e lido com a alma. Já espero ansioso pelos próximos textos.
Um grande abraço, com saudades!

Anônimo disse...

Querido amigo, quanta verdade em suas palavras. A existência do sr. Sakamoto relamente fez sentido a muitas pessoas. No livro "Ser Humano", nosso Mestre afirma que: "Pessoas com a natureza de bodhisattva não sofrem de ansiedade nem temem a morte - o sofrimento último-, isso porque sua vida é preenchida de alegria e satisfação por ter vivido em prol do bem-estar dos outros."
Saudades!!!
Bjs Fernanda

Fábia disse...

Sr.Sakamoto, pessoa dessas que mudam uma existência. Com certeza mudou a minha, o seu olhar... parecia ver minha alma. Quando fui nomeada responsável da Divisão Feminina de Jovens, ele veio ao me encontro e parecia depositar sua confiança em mim, nunca me esquecerei daquele olhar.
" A sua existência, Viva "! Saudades, Fábia.

Anônimo disse...

Tádashi,rs...
Estima verdadeira e respeito.
Nossa amizade está baseada na cumplicidade dos poucos,porém intensos momentos que dividimos na partilha que é a fraternidade.
Todos temos a capacidade para amar o nosso próximo sem reservas,sem preconceitos.
Você é uma dessas pessoas que são capazes de oferecer tudo de si sem esperar nada em troca,e por isso,todos os que lhe conhecem tem sempre muito prazer em ter você como companhia.Sua alegria,sua bondade,sua rigorosidade,sempre me contagiou e me permite crer que a nobreza da autenticidade existe sim!
Apesar de não vê-lo há tempos,eu particularmente faço questão de preservar essa amizade em minha existência que transcende o tempo.
Um grande abraço e seja sempre muito feliz!
Josí Gomes