sábado, 21 de fevereiro de 2009

As 3 noções centrais do budismo são a interdependência, a vacuidade e a impermanência.

A interdependência diz que nenhuma coisa pode existir em si, tudo está vinculado e conectado a todas as outras coisas.

A vacuidade é consequência direta da interdependência; não é o nada, mas ausência de existência própria.

E, segundo a impermanência, tudo no universo muda, se move e tem uma história, tudo evolui, tudo é impermanente.

A ciência se encontra completamente com esses 3 conceitos.

A mecânica quântica, uma das teorias subjacentes à física moderna, mostra que duas partículas, uma vez que interagiram juntas, conservam sua memória: mesmo que uma delas esteja agora em Andrômeda, a 2 milhões de anos-luz, e que a outra esteja aqui, se eu perturbar uma, a outra o sabe instantaneamente, sem nenhuma transmissão de informação. A realidade não é localizada e fragmentada, e sim holística e global. Isto é interdependência. Talvez possa explicar como o sentimento de uma pessoa é capaz de causar algum tipo de impacto em outra, mesmo que estejam separadas no tempo e no espaço.

A mecânica quântica diz também que as partículas que compõem um objeto qualquer – uma mesa, por exemplo – quando não são observadas existem sob a forma de ondas. Somente quando são observadas tornam-se partículas. É ao mesmo tempo, portanto, onda e partícula. O que quer dizer que as partículas não têm realidade intrínseca. Eis a vacuidade. Existência e não-existência.

A astrofísica constatou que tudo no universo muda, se move e tem uma história. O universo teve um início, tem um presente e terá um futuro. As estrelas são impermanentes: elas nascem, vivem sua vida e morrem, não na escala de tempo de uma vida humana de 100 anos, mas em milhares, até mesmo bilhões de anos. Tudo se move. Um objeto imóvel está, na verdade, cheio de elétrons que dançam e rodopiam, embora isso não possa ser observado a olho nu. Mesmo o espaço que nos rodeia está cheio de bilhões de partículas virtuais, ou seja, de partículas fantasmáticas que aparecem e desaparecem em ciclos de vida e de morte de frações de segundo. Tudo evolui. Tudo é impermanente.


Texto adaptado do livro Trinh Xuan Thuan – O agrimensor do cosmo,
da série Nomes de Deuses (Editora Unesp)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A religião do futuro será cósmica, trascendendo a idéia de um Deus existindo em pessoa e nascida da experiência de todas as coisas, naturais e espirituais. Se existe uma religião que pode estar de acordo com os imperativos da ciência moderna, é o budismo.

Albert Einstein

Das quatro grandes religiões do mundo, três são monoteístas, se baseiam na crença em um único grande e poderoso Deus: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

O budismo difere das demais linhas religiosas exatamente em seu ponto central, pois não está fundada na crença em Deus.

O budismo parte de uma experiência humana e pessoal, e não de uma revelação divina ou mística, e desse princípio decorre toda a linha de raciocínio de sua doutrina. Daí, talvez, dizerem que os budistas são ateus (muito embora nem todos admitam que, no final das contas, a crença mística em Deus – como de resto, todas as crenças – é, na verdade, fruto da mente humana).

O budismo surgiu há quase 2500 anos (0u 3000, dependendo da fonte), com Sakyamuni.

O sufixo “ismo”, de origem grega, é usado para ampliar o alcance de outra palavra. Quando falamos em evolucionismo, por exemplo, estamos nos referindo às idéias, ao raciocínio, ao sistema que fundamenta uma linha de pensamento científico – no caso, a teoria da evolução.

Ao acrescentar o sufixo à palavra buda – budismo – estamos falando da filosofia, da doutrina, dos ensinamentos do buda.

O sufixo “ista”, por sua vez, serve para qualificar uma pessoa, indicando-a como seguidora de um determinado sistema: comunista, marxista, fascista etc. Um budista é, portanto, um seguidor ou praticante dos ensinos do buda.

O conceito de Buda não é equivalente ao de Deus. “Buda” é um título dado a alguém como Rei, Duque, Mestre etc. “Buda”, no caso, é o título que se dá a uma pessoa que, por si próprio, atingiu a iluminação.

Budismo é, portanto, o ensino do Buda: é aquele que se iluminou ensinando outros a também atingir a iluminação (o que vem a ser iluminação é assunto para outras postagens).

Sidharta Gautama foi a primeira pessoa amplamente reconhecida como Buda. Nasceu príncipe, filho de reis, e pertencia a um clã chamado Sakya. Após atingir a iluminação foi chamado Sakyamuni (o sábio dos Sakya). Assim, ganhou o título Buda e ficou famoso como Buda Sakyamuni.

Depois de atingir a iluminação, Sakyamuni procurou ensinar o que havia aprendido, o que fez por quase 50 anos. O conjunto do que ensinou é o que historicamente se chama budismo. O mais correto seria chamar seus ensinos de budismo Sakyamuni.

Sakyamuni, na verdade, não foi o 1° buda, tampouco o único. Historicamente é, sim, o 1° buda conhecido e, portanto, é considerado o fundador do budismo. Mas, antes e depois dele, existiram outros budas, ou seja, outras pessoas também atingiram o mesmo estágio de vida e iluminação. A diferença talvez esteja no que cada um fez a partir de então.

Sakyamuni tornou concreta, com sua história e ensinamento, a possibilidade da iluminação do homem, e fez de sua própria iluminação uma saga de alcance extraordinário, no tempo e no espaço, que se propagou por séculos e se estendeu por todo o mundo, influenciando tudo o que veio depois, em todas as áreas do conhecimento e do comportamento humano.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A 1ª visita do presidente Ikeda ao Brasil foi em outubro de 1960.

A 2ª visita se deu após quase 6 anos, em março de 1966.

Depois, um grande hiato de quase 20 anos, durante o qual, principalmente por razões políticas – tempos de ditadura militar - o presidente Ikeda não teve permissão para adentrar no país.

Os mais veteranos devem se lembrar ainda da grande tristeza de 1974, quando um grande festival foi realizado e a cadeira do principal convidado estava vazia (ou melhor, na impossibilidade de sua presença, em seu lugar foi simbolicamente colocada uma foto) porque, às portas do país, seu visto de entrada foi negado.

Por longos 18 anos a BSGI carregou a frustração de não ter seu desejo realizado.

Assim foi que, para que a desejada vinda pudesse realmente se concretizar, a BSGI procurou se cercar também de outras garantias a seu alcance. Acredito que foi em meio a essa circunstância que acabou por acontecer a aproximação com um político, na época deputado federal, visando estreitar e possibilitar o acesso da BSGI ao governo de então.

Também em meio aos preparativos para o grande festival de 1984, no calor dos acontecimentos, houve a nomeação de um novo danshibutyo. Ao que parece, o político, por alguns motivos, se desgostou com o então coordenador da DMJ da BSGI e quis sua substituição.

Esta, na verdade, não é uma versão oficial. É somente a versão que correu em meio à divisão, e nem sei se é verdade. Mas foi mais um (forte) fato que, na época, fortaleceu a DMJ e aumentou a motivação de seus membros: responder à manobra do político unindo a divisão em torno de seus danshibutyos.

E a 3ª visita finalmente aconteceu em 1984, e o resto é história.

O tempo seguiu seu curso. O político há tempos desapareceu da cena nacional e nem importa mais saber seu nome. Hoje, aquele ex-danshibutyo e o novo responsável que o substituiu são, respectivamente, o presidente e o 1° vice-presidente da BSGI: Julio Kosaka e Naoto Yoshikawa.

E assim é que, 25 anos depois, a roda completou seu giro.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fevereiro de 1984.

As semanas se passaram rapidamente e agora, depois de meses de preparativos, era questão de dias.

Eu e meus companheiros de Ribeirão Preto éramos os únicos membros do interior participando do esquema do seiri e, conforme combinado, permanecemos em São Paulo por 10 dias seguidos.

Ficamos hospedados na pensão do sr. Komatsu, na rua Barão de Iguape, bairro da Liberdade. Era onde meu irmão morava na época em que estudou na faculdade de engenharia da USP.

A pensão era... bem, era uma pensão... acho que quem nunca entrou numa pensão não vai conseguir imaginar como é... posso dizer que não é o que se pode chamar de um lugar elegante, bonito e confortável. Mas era o que, na época, estava ao nosso alcance. Lá, na sua pensão, o sr. Komatsu nos recebeu gentil e graciosamente. Dividimos beliches num quarto meio escuro. Me lembro de tudo, desde o misto de coragem e desamparo até o cheiro meio úmido. Interessante como as sensações retornam e invadem os sentidos novamente.

Fui designado para fazer parte da recepção do Grupo Sakura (grupo que veio do Japão para participar do festival), escalado para o plantão noturno em um dos hotéis em que o grupo ficou hospedado. Meu plantão se iniciava às 18:00 ou 18:30 horas. Eu ficava na central do hotel durante a noite, e saía no dia seguinte, de manhã. Daí voltava à pensão, para descansar. Às vezes ia andar à toa pela cidade, sozinho. Para almoço, comprava bentô nas lojinhas da Liberdade e, às vezes, me permitia tomar também suco de soja, daqueles que vêm em saquinho e se bebe bem geladinho.

À medida em que a data do festival se aproximava, os dias foram ficando mais movimentados. Então, eu fazia plantão à noite no hotel, saía, descansava um pouco e, antes do outro plantão, ia ajudar em algo, onde precisasse. Nas vésperas só retornava à pensão para o banho.

No dia em que o presidente Ikeda chegou, eu estava no Velódromo do Ibirapuera, onde os ensaios estavam sendo realizados. Eu não estava de seiri. Já incorporado a meu grupo de plantão, aproveitava uma rara oportunidade - bem no meio do calor de tudo que acontecia, completamente à vontade, sem nenhuma atribuição, responsabilidade ou tarefa para cumprir – para observar e apreender o que fosse possível. Andei por todos os cantos, e num determinado momento, sozinho, num lugar completamente isolado, eu refletia e observava à distância a movimentação das pessoas. Foi dali que vi quando o ensaio foi paralisado. As pessoas pararam tudo o que estavam fazendo e se reuniram para ouvir a notícia: o avião com o presidente Ikeda tinha pousado na cidade de São Paulo. A vibração e eletricidade que percorreu o local foi indescritível. As pessoas se abraçavam, festejando. Ondas de alegria, de emoção, de alívio. Finalmente tinha acontecido. E eu ali, sozinho, sem poder abraçar ou cumprimentar alguém. E, ao mesmo tempo, abraçando a todos com o meu olhar. Eu também estava emocionado, alegre e feliz. Observava tudo de longe. Era 18 de fevereiro de 1984.

Uma semana depois, no dia 26, aconteceu o tão aguardado festival para celebrar o tão aguardado encontro. Mas o mais marcante mesmo tinha sido o dia anterior.

Sábado, dia 25, ensaio geral do grande evento – o 1° Festival Cultural e Esportivo da SGI no Brasil. Tudo sendo realizado como se fosse o próprio festival. O Ginásio do Ibirapuera lotado, com uma platéia formada por pessoas que, por motivos de limitação de espaço, não poderiam, por óbvio, estar no festival propriamente dito. E, logicamente, sabiam que não iam poder compartilhar com a presença do visitante ilustre, a quem era oferecido o festival. E o que aconteceu todo mundo já sabe: o presidente Ikeda lá compareceu, de surpresa. E, porque inesperado, o encontro foi altamente especial e as manifestações de uma espontaneidade mágica e comovente, sem maiores formalidades. O presidente Ikeda passando pela quadra, com os polegares erguidos. De xereta, eu estava lá.

No domingo, também a tudo assisti. Não as apresentações que, estas, para falar a verdade, não me interessavam muito. Do lado de fora do ginásio de esportes, o espetáculo que vi foi o das pessoas comuns, transformadas em grandes artistas da vida, no desempenho desmedido de seus esforços. A concentração, os momentos que antecediam cada apresentação. A torcida e expectativa de quem ficava, esperando sua vez de também se apresentar. A saída dos figurantes do ginásio, depois de se apresentarem, de volta ao local da concentração, com olhares brilhantes em faces mais brilhantes ainda, os sorrisos mais abertos que alguém poderia estampar, misturados com lágrimas de alegria e multiplicados em incontáveis rostos radiantes. Milhares de pessoas, cada um na sua singularidade, fazendo do seu trabalho individual o melhor de si, para compor uma extraordinária e complexa sinfonia de cores, luzes, sons. Uns no palco com seus trajes coloridos, instrumentos, bandeiras, lanternas, danças, painéis. Outros nos bastidores, com seus uniformes, posturas e esforços, coordenando a movimentação e zelando pelo bom andamento e segurança de todos. Cada um, contribuindo com sua nota particular para compor a gloriosa melodia da vitória.

Não são muitas as pessoas que podem testemunhar momentos encantados e inenarráveis, de um ponto de observação tão privilegiado. Só podiam mesmo deixar marcas indeléveis e invisíveis, que se incorporam por completo na vida de quem viu.

E quem viu pode contar.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Em fevereiro de 1984 eu atuava como vice-responsável da DR (hoje DMJ) do subdistrito Franco da Rocha.

(O nível da estrutura organizacional chamado “subdistrito” não existe mais, em seu lugar foi implantada a comunidade, para possibilitar às pessoas a participação em atividades em locais mais próximos de suas residências. Para implantação do sistema de comunidade, a BSGI toda foi reestruturada, primeiro em São Paulo, em torno da sede central. No interior da BSGI, Ribeirão Preto foi a primeira localidade a implementar a nova estrutura, num extraordinário trabalho de levantamento geral de famílias e recomposição organizacional e, hoje, é quase inacreditável que tudo tenha sido feito à base de lápis, borracha, caneta, máquina de escrever, fichas, papel sulfite, carbono. E muita vontade de acertar.)

À época e desde sempre, eu ouvia as histórias da 1ª (1960) e da 2ª (1966) visitas do presidente Ikeda ao Brasil, e a frustrada 3ª visita que, passados muitos anos, ainda não tinha ocorrido.

Pois era chegado o momento. A BSGI (na época ainda com a velha denominação de NSB) se movimentava em torno da ansiosamente aguardada 3ª visita do presidente Ikeda. Um grande festival estava sendo preparado para a ocasião e, claro, todos queriam participar.

O agitado final de 1983 e início de 1984 foi todo preenchido com os preparativos e ensaios para o festival. Os ensaios eram realizados em São Paulo, nos finais de semana. Às 5ªs feiras realizávamos as reuniões de daimoku (que chamávamos de shodaikai) na rua Paraíso (então residência da família Suzuki que, depois, se tornou a antiga Sede Regional). A maioria do pessoal participava da atividade de pé mesmo: não cabiam todos, e ficava mais gente fora do que dentro da sala - no alpendre, ao lado da janela, na calçada. Na sala superlotada o calor era quase insuportável, mas a atividade era imperdível de tanta animação – logicamente ainda nem podíamos imaginar o que seria realizar uma reunião numa sala ampla, com as pessoas devidamente acomodadas em cadeiras confortáveis, com ar condicionado...

Os ensaios aconteciam em praticamente todos os finais de semana, em São Paulo, e os participantes que faltassem corriam o risco de perder a vaga.

Todas as pessoas da localidade de Ribeirão Preto e região que participavam dos ensaios, o faziam como figurantes, exceto 4: eu, meu irmão Celso e mais 2 companheiros de desafio - o Antonio Quintilhano (já falecido) e o Moura.

O desafio dos 4 foi realmente grande, pois nosso objetivo era participar do seiri. Ocorre que o seiri era responsabilidade do Sokahan (grupo que à época tinha pouco mais de 1 ano de existência no Brasil), e não éramos membros do grupo (Celso, na verdade, fazia parte do Sokahan, pois estudava em São Paulo e lá tinha residência e atuação, tendo sido, inclusive, um dos fundadores do grupo – mas, como estava sempre em Ribeirão Preto, constantemente viajávamos juntos).

Quase todo o pessoal viajava em grupo, com ônibus fretado. Mas nós sempre íamos separados dos demais, em ônibus de linha, porque tínhamos que chegar antes (pois o seiri é o primeiro que chega, e o último que sai). Nosso retorno também era separado, sempre chegávamos em Ribeirão Preto muito depois.

Acho que éramos os únicos participantes do seiri que não moravam em São Paulo. E o fato de sermos do interior não nos conferia nenhuma regalia ou tratamento diferenciado. Até pelo contrário. Aliás, fomos autorizados a participar do seiri advertidos para o fato de que seríamos considerados como os demais, todos moradores em São Paulo, ou seja: locomoção, pernoite, alimentação, seriam tudo por nossa própria conta e risco. E nenhum privilégio como chegar mais tarde ou ir embora mais cedo do seiri. Só retornávamos depois de finalizados os trabalhos, e a dispensa geralmente se dava em uma reunião geral de encerramento.

Era extenuante. Depois de um final de semana movimentado, ainda tínhamos que nos deslocar para a rodoviária, noite adentro, cansados, com fome, sem dinheiro. Mas tudo era também apaixonante. Aliás, tudo era movido à paixão. O que nos fazia superar cansaço, fome, sede, incômodos.

25 anos depois, tudo retorna à minha mente: minha velha mochila de lona verde, minha roupa branca de seiri, as viagens nos ônibus do Cometa ou da Rápido Ribeirão, o frescor das madrugadas quando chegávamos no terminal rodoviário do Tietê, o metrô, o trajeto da rua Vergueiro até o Centro Cultural na rua Tamandaré, a parada na padaria da esquina para um pão com manteiga na chapa e um pingado, os deslocamentos na carroceria do caminhão de materiais, os ensaios, a movimentação, as pessoas chegando, ensaiando, lanchando, descansando, indo embora para suas casas, os pernoites nos locais mais inusitados, os companheiros mais incríveis que se pode conhecer, as brincadeiras, a seriedade, a rigorosidade, os treinamentos, os desafios, a sinceridade. Raríssimas oportunidades, numa extraordinária escola de vida, com aulas dinâmicas, intensas, reais.

E, 25 anos atrás, fevereiro de 1984 chegou.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

No dia 18 de novembro – data da fundação da Soka Gakkai - meu pai faria 87 anos. Recebi um e-mail afetuoso que segue abaixo, com minha resposta.

Oi, tudo bem?

Li no seu blog sobre seu pai.
Gostaria de também compartilhar meus sentimentos sobre ele que, para mim, foi um verdadeiro pai.

Tive a boa sorte de encontrá-lo em minha juventude, pois ele me conduziu à prática da fé e ao caminho de mestre e discípulo.

O Grande Mestre Tientai afirma: "Um doutor superior ouve a voz de um paciente para diagnosticar sua doença (...), um doutor médio o faz observando a coloração facial e a fisionomia, e o doutor inferior examinando o pulso" (BS 1064).

Tal como um médico superior, seu pai ia diretamente ao ponto essencial da doença (espiritual) e, com seu jeito rigoroso e sem rodeios, desestruturava qualquer casa mal construída e, então, com sua benevolência, ajudava a reerguê-la firme e imponente, como um castelo - o castelo da felicidade.

Ele era assim, sua fala continha muitos significados simbólicos, era preciso muita reflexão para entendê-lo. Mas quem conseguiu entendê-lo, hoje permanece fiel a todos os princípios éticos que ele ensinou.

Era um mestre na arte de ensinar, pois nos fazia buscar nas profundezas da vida o significado de seus diálogos. Era como Sakyamuni usando as parábolas para conduzir seus discípulos ao estado de Buda.

As parábolas incitam a imaginação, quebram pré-conceitos, abrem a percepção e formulam novos conceitos, e neste ritmo dialógico, a pessoa vai se refazendo, se construindo, se transformando...

Diz-se que "o espaço é a condição necessária para o movimento, e o movimento a condição fundamental para a mudança". Então, no espaço do diálogo com o seu pai criou-se uma onda de movimento de grandes valores humanos.

Quantas saudades!

Tive o privilégio de ganhar sete pedrinhas do túmulo dos Três Mártires de Atsuhara. Na ocasião, ele me disse: "Essas pedras tem um profundo significado". Era 10 de setembro de 1990. Guardo essas pedras como um tesouro. Quando as vejo, um misto de nostalgia invade meu ser. Ali estão contidos: perseverança, lealdade e coragem.

Sou grata ao sr. Sakamoto!

Com carinho, Maria José.

Olá.

Obrigado pelas palavras carinhosas. Também sinto saudades do meu pai.

Embora fosse meu pai, na juventude convivi pouco com ele. Desde cedo percebi que ele não poderia me dispensar muita atenção e, tanto eu como meus irmãos, aprendemos que aquele pai não nos pertencia.

Sempre tive muito orgulho de tê-lo como pai, e apenas nos últimos anos é que pudemos conviver com um pouco mais de proximidade, de forma mais livre, e pude reconhecer com mais clareza sua grandeza de espírito.

A forma corajosa e magnânima com que ele lidou e enfrentou a doença me deixou profundamente comovido. Fui um observador privilegiado de um homem que transbordava energia e amava a vida, sempre repleto de vibração, e que se recusava a ser derrotado. Conservo a visão de seus últimos dias, já impossibilitado de falar, com o corpo já enfraquecido pela idade e pela doença, mas com os olhos brilhando de vida.

Às vezes parece que ainda o vejo por aí, caminhando pelas ruas daquele seu jeito rápido de andar, meio que arrastando os pés.

Às vezes acho que ele ainda está por aí, nos observando, calado. E acho que às vezes ele se orgulha, outras vezes ele se preocupa... mas sempre com aquele ar de quem cumpriu seu trabalho, sem dever nada a ninguém... e com os olhos faiscando de rigorosidade e benevolência...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Trechos do elegante discurso de John McCain, reconhecendo a vitória de Barack Obama - ética, respeito, seriedade e amor à nação e às instituições democráticas.

Meus amigos, nós chegamos ao fim de uma longa jornada.

O povo americano falou, e falou claramente.

Há pouco, tive a honra de telefonar para o senador Barack Obama
para parabenizá-lo.

Em uma disputa tão longa e difícil quanto foi a dessa campanha, o sucesso dele demanda meu respeito por sua habilidade e perseverança.

Esta é uma eleição histórica, e reconheço o significado especial que ela tem para os afro-americanos e para o orgulho todo especial, que deve ser deles nesta noite.

O senador Obama e eu tivemos e discutimos sobre nossas diferenças, e ele prevaleceu. Sem dúvida muitas dessas diferenças permanecem.

Estes são tempos difíceis para o nosso país. E eu prometo a ele esta noite fazer tudo em meu poder para ajudá-lo a nos liderar através dos muitos desafios que vamos encarar.

Peço a todos os americanos que me apoiaram que se juntem a mim não apenas para parabenizá-lo, mas para oferecer ao nosso próximo presidente nossa boa vontade e nossos esforços mais honestos para encontrar modos de nos unirmos a fim de efetuarmos os compromissos necessários para superar nossas diferenças e ajudar a restaurar nossa prosperidade, defender nossa segurança em um mundo perigoso, e deixar para nossos filhos e netos um país melhor e mais forte do que o que herdamos.

Sejam quais forem nossas diferenças, somos todos americanos. E por favor acreditem em mim quando digo que nenhuma ligação jamais significou mais para mim do que essa.

É natural, nesta noite, sentir algum desapontamento. Mas amanhã teremos de seguir adiante e trabalhar em conjunto para colocar nosso país em movimento de novo.

Lutamos tão duro quanto pudemos. E embora tenhamos chegado perto, a falha foi minha, não de vocês.

Estou tão profundamente grato a todos vocês pela grande honra do seu apoio e por tudo que vocês fizeram por mim. Eu gostaria que o resultado tivesse sido diferente, meus amigos.

A estrada foi difícil desde o começo, mas o seu apoio e amizade nunca se abalaram. Não poderia expressar de modo adequado o quanto estou profundamente em débito com vocês.

Eu não sei o que mais eu poderia ter feito para tentar vencer essa eleição. Deixarei isso a outros para determinar. Todo candidato comete erros, e tenho certeza de que cometi minha parcela deles. Mas não vou gastar um minuto do futuro lamentando o que poderia ter sido.

Essa campanha foi e vai permanecer como a grande honra da minha vida, e meu coração está cheio de nada menos que gratidão pela experiência e pelo povo americano por me conceder uma oportunidade justa antes de decidir que o senador Obama e meu velho amigo, o senador Joe Biden, deveriam ter a honra de nos liderar pelos próximos quatro anos.

Eu não seria um americano digno desse nome se lamentasse um destino que me permitiu ter o privilégio extraordinário de servir a esse país por meio século.

Hoje, fui um candidato ao posto mais alto do país que amo tanto. E esta noite permaneço um servo. Isso é benção suficiente para qualquer um.

Esta noite --esta noite, mais do que em qualquer outra noite, tenho em meu coração nada mais que amor por esse país e por todos os seus cidadãos, tenham apoiado a mim ou ao senador Obama.

Desejo boa sorte ao homem que foi meu oponente e será meu presidente.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Trechos do discurso da vitória de Barack Obama, numa noite memorável em Chicago

Se alguém ainda duvida de que a América é um lugar onde tudo é possível, se ainda pergunta se o sonho dos pioneiros ainda estão vivos em nossos tempos, se ainda questiona o poder da nossa democracia, esta noite é sua resposta.

É a resposta das filas que cercaram escolas e igrejas em números que esta nação nunca havia visto. Das pessoas que esperaram três, quatro horas, muitas pela primeira vez em suas vidas, porque acreditavam que desta vez precisava ser diferente, que suas vozes podiam fazer diferença.

É a resposta de jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, índios, gays, heterossexuais, deficientes e não-deficientes. Americanos que enviaram uma mensagem ao mundo de que nós nunca fomos somente uma coleção de indivíduos ou uma coleção de Estados vermelhos e azuis.

Nos somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.

É a resposta que deram aqueles que ouviram - por tanto tempo e de tantos - para serem cínicos, medrosos e hesitantes sobre o que poderiam realizar para colocar a mão no arco da história e torcê-lo uma vez mais, na esperança de dias melhores.

Faz muito tempo. Porém, nesta noite, por causa do que fizemos neste dia de eleição, neste momento decisivo, a mudança chegou à América.

Acima de tudo, eu nunca esquecerei a quem esta vitória realmente pertence. Isto pertence a vocês. Isto pertence a vocês.

Nunca fui o candidato favorito na disputa por esse cargo. Nós não começamos com muito dinheiro ou muitos endossos. Nossa campanha não nasceu nos corredores de Washington. Nasceu nos jardins de Des Moines, nas salas de Concord e nos portões de Charleston. Foi construída por homens e mulheres trabalhadores que cavaram as pequenas poupanças que tinham para dar US$ 5, US$ 10 e US$ 20 para essa causa.

Ela [a campanha] cresceu com a força dos jovens que rejeitaram o mito de apatia da sua geração e deixaram suas casas e suas famílias por empregos que ofereciam baixo salário e menos sono.
Ela tirou suas forças de pessoas não tão jovens assim que bravamente enfrentaram frio e calor para bater às portas de estranhos e dos milhões de americanos que se voluntariaram e se organizaram e provaram que, mais de dois séculos mais tarde, o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.

Esta é a nossa vitória.

E eu sei que vocês não fizeram isso só para ganhar uma eleição. Sei que vocês não fizeram tudo isso por mim. Vocês fizeram isso porque entendem a grandiosidade da tarefa que temos pela frente.

Podemos comemorar nesta noite, mas entendemos que os desafios que virão amanhã serão os maiores de nossos tempos - duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira do século.
O caminho será longo. Nossa subida será íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato. Mas, América, nunca estive mais esperançoso de que chegaremos lá. Prometo a vocês que nós, como pessoas, chegaremos lá.

Haverá atrasos e falsos inícios. Muitos não irão concordar com todas as decisões ou políticas que vou adotar como presidente. E nós sabemos que o governo não pode resolver todos os problemas. Mas sempre serei honesto com vocês sobre os desafios que enfrentar. Vou ouvir vocês, especialmente quando discordarmos. E, acima de tudo, vou pedir que vocês participem do trabalho de refazer esta nação, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos - bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada.

O que começamos 21 meses atrás no inverno não pode terminar nesta noite de outono. Esta vitória, isolada, não é a mudança que buscamos. Ela é a única chance para fazermos essa diferença. E isso não vai acontecer se voltarmos ao modo como as coisas eram. Isso não pode ocorrer com vocês, sem um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício.

Então exijamos um novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, com o qual cada um de nós irá levantar e trabalhar ainda mais e cuidar não apenas de nós mesmos mas também uns dos outros. Lembremos que, se essa crise financeira nos ensinou uma coisa, foi que não podemos ter uma próspera Wall Street enquanto a Main Street sofre.

Neste país, nós ascendemos ou caímos como uma nação, como um povo. Resistamos à tentação de voltar ao bipartidarismo, à mesquinhez e à imaturidade que envenenou nossa política por tanto tempo.

Como [o ex-presidente Abraham] Lincoln [1861-1865] afirmou para uma nação muito mais dividida que a nossa, nós não somos inimigos, e sim amigos. A paixão pode ter se acirrado, mas não pode quebrar nossos laços de afeição. E àqueles americanos cujo apoio eu ainda terei que merecer, eu talvez não tenha ganho seu voto hoje, mas ouço suas vozes. E preciso de sua ajuda. Serei seu presidente também.

E a todos aqueles que nos assistem nesta noite, além das nossas fronteiras, de parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, as nossas histórias são únicas, mas o nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir.

Àqueles que destruiriam o nosso mundo: nós os derrotaremos. Àqueles que buscam paz e segurança: nós os apoiamos. E a todos que questionaram se o farol da América ainda ilumina tanto quanto antes: nesta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força da nossa nação vem não da bravura das nossas armas ou o tamanho da nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança.

Este é o verdadeiro talento da América: a América pode mudar. Nossa união pode ser melhorada. O que já alcançamos nos dá esperança em relação ao que podemos e ao que devemos alcançar amanhã.

Esta eleição teve muitos "primeiros" e muitas histórias que serão contadas por gerações. Mas há uma que está em minha mente nesta noite, sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ela seria como muitos dos outros milhões que ficaram em fila para ter a voz ouvida nesta eleição, não fosse por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.

Ela nasceu apenas uma geração após a escravidão; uma época na qual não havia carros nas vias nem aviões nos céus; quando uma pessoa como ela não podia votar por dois motivos - porque era mulher ou por causa da cor da sua pele. Nesta noite penso em tudo que ela viu neste seu século na América - as dores e as esperanças, o esforço e o progresso, a época em que diziam que não podíamos, e as pessoas que continuaram com o credo: sim, nós podemos!

Em um tempo no qual vozes de mulheres eram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela viveu para vê-las se levantar e ir às urnas. Sim, nós podemos!

Quando havia desespero nas tigelas empoeiradas e a depressão em toda parte, ela viu uma nação conquistar seu New Deal, novos empregos, um novo senso de comunidade. Sim, nós podemos!

Quando bombas caíam em nossos portos e a tirania ameaçava o mundo, ela estava lá para testemunhar uma geração chegar à grandeza, e a democracia foi salva. Sim, nós podemos!
Ela estava lá para ver os ônibus em Montgomery, as mangueiras em Birmingham, a ponte em Selma e um pregador de Atlanta que disse: "nós devemos superar!" Sim, nós podemos!

Um homem chegou à Lua, um muro caiu em Berlim, um mundo foi conectado por nossa ciência e imaginação. Neste ano, nesta eleição, ela tocou o dedo em uma tela e registrou o seu voto porque, após 106 anos na América, através dos melhores e dos mais escuros dos tempos, ela sabe que a América pode mudar. Sim, nós podemos!

América, nós chegamos tão longe. Nós vimos tanto. Mas há tantas coisas mais para serem feitas. Então, nesta noite, devemos nos perguntar: se nossas crianças viverem até o próximo século, se minhas filhas tiverem sorte suficiente para viver tanto quanto Ann Nixon Cooper, quais mudanças elas irão ver? Quanto progresso teremos feito?

É nossa chance de responder a esse chamado. É o nosso momento.

Este é nosso momento de devolver as pessoas ao trabalho e abrir portas de oportunidade para nossas crianças; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de retomar o sonho americano e reafirmar a verdade fundamental de que, entre tantos, nós somos um; que, enquanto respirarmos, nós temos esperança. E onde estamos vai de encontro ao cinismo, às dúvidas e àqueles que dizem que não podemos. Nós responderemos com o brado atemporal que resume o espírito de um povo: sim, nós podemos!

domingo, 5 de outubro de 2008

Tenho um espelho. Sempre o conservo comigo. Na verdade, não passa de um pedaço de vidro quebrado, aproximadamente do tamanho da palma da minha mão. As suas costas são cobertas por pequenos arranhões, mas isso não impede que reflita tudo o que se coloque à sua frente. Um fragmento de espelho quebrado na parte mais grossa, que provavelmente poderia ser encontrado em qualquer depósito de entulhos. Para mim é tudo, menos entulho.

Meus pais se casaram no 4° ano do período Taisho (1915), e minha mãe, como parte de seu enxoval, trouxe uma pentedeira com um espelho muito bonito. Quantas vezes não deve ter refletido o rosto da recém-casada, devolvendo uma imagem clara e nítida. Aproximadamente 20 anos mais tarde, entretanto, o espelho, de alguma forma, foi quebrado. Meu irmão mais velho, Kiichi, estava em casa naquele dia. Ele e eu separamos os estilhaços e apanhamos dois dos pedaços maiores para guardar como lembrança.

Pouco tempo depois, a guerra estourou. Meus quatro irmãos mais velhos partiram para as linhas de combate, alguns para lutar na China, outros na Ásia Sudeste. Minha mãe – seus quatro primeiros filhos levados para longe – tentava não mostrar preocupação. Entretanto, parecia envelhecer repentinamente. Então, os ataques aéreos a Tóquio começaram e, logo, tornaram-se uma ocorrência diária. Eu mal conseguia suportar olhar para o rosto de minha mãe. Como se isso pudesse de algum modo proteger a sua vida, eu conservava o pedaço de espelho sempre comigo, envolvendo-o cuidadosamente dentro de minha camisa, enquanto me desviava das bombas incendiárias que caíam à nossa volta.

Quando a guerra terminou, recebemos a notificação de que meu irmão primogênito havia sido morto no combate em Burma. Imediatamente pensei no pedaço de espelho que eu sabia que ele devia carregar no bolso de seu uniforme. Eu podia imaginá-lo, durante uma calmaria na luta, tirando-o e olhando o seu rosto com a barba por fazer, pensando saudosamente em sua mãe e no seu lar. Sei como ele deve ter se sentido, pois também tenho um pedaço de espelho e, quando olho para ele, me vêm as lembranças de meu irmão.

Nos tempos obscuros e problemáticos após a derrota do Japão, deixei a minha casa e fui morar em alojamentos. O quarto era pequeno, desguarnecido e feio, mas eu era pobre demais para comprar alguma coisa.Obviamente, não havia espelho. Felizmente eu tinha o meu pedaço de espelho comigo. Eu o mantinha na gaveta da minha escrivaninha. Todas as manhãs, antes de ir trabalhar, eu o tirava e examinava o meu rosto magro, me barbeava, penteava o cabelo e o emplastrava com brilhantina para que se assentasse. Uma vez por dia, quando eu tomava o espelho em minhas mãos, eu não podia deixar de pensar em minha mãe, mesmo que eu não quisesse. Quase que inconscientemente eu me encontrava pensando: bom dia, mãe!

Pensar na mãe uma vez por dia – acho que é a melhor forma de um jovem evitar cometer erros. A sociedade japonesa, na época, estava num estado de colapso moral e psicológico. Felizmente, consegui esquivar-me de cair num tipo de desespero e desesperança que poderia ter me levado a fazer algo auto-destrutivo. Devo isso ao danificado pedaço de espelho.

Havia ocasiões em que o espelho me dizia que a cor do meu rosto não estava boa, e que eu não estava aparentando bem. Com isto como uma advertência, eu usava um selo extra de racionamento e comia duas porções quando ia ao refeitório me alimentar. Houve também ocasiões em que fixei o meu reflexo no espelho, notando o modo sinistro como o osso molar de meu rosto se salientava, e tremia de desgosto, imaginando o que eu teria feito para merecer um rosto tão feio. Outras vezes, quando estava de bom humor, eu olhava para a minha imagem e esboçava um sorriso. Num certo sentido, o cuidado e a preocupação me acompanharam sempre naqueles dias, embora não chegassem a mim em palavras. O pedaço de espelho me mostrava como eu estava me alimentando diariamente e me mantinha no caminho correto.

Quando o meu mestre, Jossei Toda, estava com 19 anos, ele decidiu deixar o pequeno vilarejo em Hokkaido, onde tinha nascido, e foi para Tóquio. Nessa ocasião, sua mãe deu-lhe uma jaqueta bordada. Enquanto ele tivesse a jaqueta, enquanto ele a vestisse, ela lhe disse, ele conseguiria ultrapassar todas as dificuldades que pudesse encontrar. Era branca, com um contorno azul escuro, um bordado complicado, feito com grande cuidado e todo o amor e devoção de sua mãe. Ele a conservou por toda a sua vida.

Ele foi encarcerado durante os últimos anos da guerra. Porém, em 1945, quando a guerra terminou, ele foi finalmente libertado e pôde retornar à sua casa. Dizem que, quando ele descobriu que sua casa havia escapado de ser incendiada pelos ataques aéreos e que a jaqueta bordada ainda estava salva, ele disse à sua esposa que eles não precisavam se preocupar. Como a jaqueta estava intacta, ele sabia que tudo ficaria bem a partir de então.

Uma velha jaqueta, um espelho quebrado. Entretanto, ambas as coisas eram capazes de transmitir as orações de uma mãe. Esses objetos possuem o estranho poder de conseguir apoiar e alentar o coração humano quando este hesita. Pode ser que muitos riam e digam: que sentimentalismo ultrapassado. Porém, para mim, não há nada de ultrapassado com relação ao sentimento. A jaqueta e o espelho são as únicas coisas que se tornaram fora da moda.

Em 1952, quando me casei, minha esposa trouxe com ela um toucador novíssimo. A partir de então, comecei a usar o espelho novo. Um dia, deparei com a minha esposa com o velho pedaço de espelho em suas mãos, examinando-o com um olhar perplexo. Talvez ela tentasse imaginar por que alguém guardaria um pedaço de sucata tão imprestável, que não serviria nem mesmo para divertir uma criança. Quando o espelho estava quase indo para o lixo, contei a ela a história que o envolvia, e da ligação formada com minha mãe e o irmão morto na guerra. Ela apanhou uma caixa de madeira onde instalou o pedaço de espelho, onde se encontra a salvo até hoje.

Mesmo uma velha caneta, se tiver pertencido a algum grande escritor, é observada com admiração e respeito pelas pessoas das épocas posteriores, pois elas sentem que, de algum modo, é capaz de revelar os segredos das obras primas de um homem grandioso.

O pedaço de espelho quebrado. Sempre que olho para ele, ele me fala daqueles dias da minha juventude, difíceis de serem descritos, da minha juventude, das preces da minha mãe, e do triste destino de meu irmão mais velho, e continuará a fazê-lo enquanto eu viver.

(daisaku ikeda - um espelho - a arte de viver o cotidiano)