28 de abril é uma data histórica para o budismo: é o dia em que Nitiren Daishonin recitou o daimoku em público pela primeira vez, em 1253.
28 de abril é, também, o dia em que o novo prédio da sede regional da BSGI Ribeirão Preto foi inaugurado, em 1990, na rua Benjamin Constant, onde hoje se situa o Centro Cultural.
A primeira sede da BSGI em Ribeirão Preto ficava na Vila Tibério, na rua Paraíso. Foi inaugurada em 21 de julho de 1985. Antes de se tornar o centro de nossas atividades, o local – a residência que a família Suzuki gentilmente oferecia para as atividades - já era o nosso principal ponto de encontro.
A sede tinha uma sala principal (cuja capacidade não chegava a 100 pessoas sentadas em bancos de madeira), mais 3 salas menores. Em pouco tempo, já não atendia mais as necessidades. Foi preciso, então, encontrar um novo local. Muitos imóveis foram visitados, mas não era fácil encontrar algo que se encaixasse no que buscávamos, dentro de nossas possibilidades. Eis que, um dia, uma pessoa (de nome Ivan) surgiu com a notícia de um imóvel desocupado, que parecia ser interessante. Ainda não sabíamos, mas nosso local tinha sido encontrado.
O imóvel foi, assim, alugado. Mas, para que pudesse ser utilizado, precisou passar por uma ampla reforma, o que deu muito trabalho. E, realmente, o trabalho não foi pouco. Nos fundos da casa havia uma piscina, que desapareceu por completo. O espaço que abrigaria a sala principal teve que ser ampliado, com a demolição de paredes. Foi necessária a colocação de uma grande e pesada viga para sustentação da estrutura. No final, ficou uma ampla sala (para nossos padrões da época) quase quadrada, com piso de ardósia e várias portas de acesso. Não tínhamos mais bancos de madeira na sala e, sim, cadeiras.
A área era grande. Além da sala principal, mais 2 salas para pequenas reuniões, e uma outra para visitas. Na parte externa, um acanhado quarto que serviu de alojamento para o pessoal dos plantões, um pequeno sanitário e uma cozinha, também pequena. Nos fundos, um bom espaço, muito utilizado para preparativos, e até um cômodo (sem janelas) que se tornou uma mistura de secretaria e espaço para guarda de alguns materiais.
Toda a reforma foi feita voluntariamente por pessoas que, todos os dias, no cair da tarde, depois do serviço, lá compareciam para um trabalho pesado. Nos finais de semana, o grupo era reforçado com pessoas que vinham de outras cidades. Lanches e refeições eram oferecidos pelas senhoras da Divisão Feminina. Muito entulho, terra, barro, cimento, areia, tinta, e tudo aquilo que se encontra em qualquer canteiro de obras.
A inauguração foi no dia 28 de abril, com a presença do sr Eduardo Taguchi, à época 1° vice presidente da BSGI. Mas, inesquecíveis mesmo, o clima e o ambiente do dia 27, véspera da inauguração. Quase tudo pronto, cheiro de paredes recém pintadas, a movimentação e correria com os últimos preparativos. O sr Tatsuo Iwazaki, vice presidente, que tudo acompanhou, disse à noite, sorridente: “amanhã vamos receber o presidente Ikeda”. Ele havia captado a disposição de todos e a eletricidade que corria no ar.
Anos depois, aliás, o sr Tatsuo Iwazaki faleceu ali, naquele mesmo lugar, dentro da sede regional. Alto e forte como um samurai, ele era ao mesmo tempo rigoroso e afetuoso. Sua feição me remetia à figura do presidente Makiguti. Numa ocasião, num momento de descanso, ele me disse, com um cigarro entre os dedos: “Às vezes vocês podem ficar bravos conosco, pois parece que mudamos uma programação pronta, assim, sem mais nem menos. Muitas vezes isso acontece porque percebemos, em cima da hora, que é melhor realizar de outra forma. Outras vezes, solicitamos coisas com a intenção de treiná-los. Vocês sempre se desdobraram para fazer tudo dar certo, e sempre foram ágeis em prontamente atender as solicitações. Isso demonstra que vocês estão sempre prontos, o que nos deixa tranquilos. Vocês são os melhores da BSGI”.
Parece mentira, mas ele faleceu de pé, falando com as pessoas em uma reunião. Sempre pensei que foi ele quem escolheu a forma como ia falecer: em pé e em meio ao calor da batalha. Rápido, sereno e sem pestanejar.
Em janeiro do ano seguinte, o imóvel foi oferecido em venda pelo proprietário. Curiosamente, a proposta foi feita diretamente ao sr Eduardo Taguchi, que aqui se encontrava para a cerimônia de consagração do Gohonzon Especial da sala principal. Assim, um ano depois da inauguração, a sede regional não era mais um imóvel alugado. O 1° aniversário foi comemorado em prédio próprio, adquirido pelo desmedido esforço e contribuições especiais de centenas de pessoas.
Quase 11 anos após a inauguração, no dia 18/03/2001, em torno do sr Rubens Kamata, na 1ª vice presidencia da BSGI, teve lugar a cerimônia de início das obras do Centro Cultural da BSGI Ribeirão Preto. Uma enorme tenda foi montada no terreno ao lado da sede regional, no exato lugar onde foi erguido um grande prédio com 2 pavimentos, com um majestoso auditório no pavimento superior. O ato simbólico de início das obras se deu através do diretor-presidente da Construtora Toda, além de Rubens Kamata, Massayuki Sassaki e Marisa Nakamura. Representando a DJ, a honra coube a mim. Passados 9 meses do início das obras, dia 15 de dezembro de 2001, outra cerimônia teve lugar ali: a inauguração do Centro Cultural da BSGI Ribeirão Preto.
domingo, 17 de abril de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
Nos anos 80 e 90, a BSGI experimentou um grande crescimento em Ribeirão Preto. Foram anos de expansão, realizações e campanhas memoráveis. Vários fatores contribuíram para isso, e um dos principais foi a atuação impecável dos grupos horizontais da DJ.
Mais do que oferecer treinamento e aprimoramento, os grupos horizontais de então - Ongakutai, Kotekitai, Gajokai, Cerejeira, Sokahan - foram os grandes sustentáculos de todo o movimento.
O primeiro grupo oficial em Ribeirão Preto foi o Ongakutai, no tempo em que a palavra “Taiyo” ainda não fazia parte do nome. Não houve propriamente uma oficialização. O grupo existia, personificado em algumas pessoas, e não havia ainda critérios ou algum padrão estabelecido para que um grupo fosse considerado oficial. Ele simplesmente existia e, de alguma forma, atuava. Assim, todos o reconheciam como tal. E assim foi e, em determinado momento – na liderança do Fernando Gentil (a quem aproveito para render minhas homenagens) – se tornou o melhor Ongakutai do Brasil (opinião que ouvi de inúmeros e insuspeitos líderes da BSGI).
O Gajokai também atuava ativamente, primeiro realizando as atividades do seiri (quando o Sokahan ainda não existia) e, depois, se responsabilizando pelos plantões das sedes regionais. Antes de termos uma sede local, os plantões eram feitos na cidade de Campinas (quando pertencíamos à mesma estrutura organizacional). O Gajokai Ribeirão Preto passou a existir de forma oficial com a inauguração da nossa 1ª sede regional, na rua Paraíso, em julho de 1985.
A atuação do Grupo Cerejeira teve início com 6 pessoas, lá pelos idos de 1972, e a impressão que se tem é que o grupo existiu “desde sempre”, atuando ao lado do Gajokai e, depois, também do Sokahan. Prestativas e bem dispostas, as meninas cuidavam de tudo e de todos.
A Kotekitai nasceu num ensolarado dia 12 de outubro. Era 1986. A reunião inaugural foi na sede da rua Paraiso. A 1ª apresentação oficial foi, salvo engano, no palco do auditório da escola Dom Alberto Gonçalves. Para a ocasião, pintamos um grande e colorido painel que serviu de fundo para a reunião e para a apresentação da então mais nova Kotekitai do mundo.
O Sokahan foi fundado em Ribeirão Preto no dia 3 de maio de 1998. A história será contada um pouco melhor em outra postagem, mas é certo que, mesmo antes da fundação local, muitos dos nossos participavam das atividades em São Paulo como se membros do grupo fossem.
Cada grupo com sua história, tradição, diretrizes, atividades e personalidade próprias e, ao mesmo tempo, como se fossem, juntos, um único grupo. Eram centenas de jovens, espalhados por toda a organização, em dezenas de cidades, sempre prontos a atender quando e onde solicitados. Eram a certeza e a segurança de que tudo seria realizado com sucesso. Não importava se sobre o palco ou nos bastidores, cada qual no seu campo de atuação, com seus desafios pessoais, contribuía dando o seu melhor.
A história escrita pelos indivíduos. E seguindo seu curso. E novas histórias sendo escritas e contadas pelo Taiga, o Núcleo de Desenvolvimento da Orquestra, e quem mais vier pela trilha aberta sem temor.
Mais do que oferecer treinamento e aprimoramento, os grupos horizontais de então - Ongakutai, Kotekitai, Gajokai, Cerejeira, Sokahan - foram os grandes sustentáculos de todo o movimento.
O primeiro grupo oficial em Ribeirão Preto foi o Ongakutai, no tempo em que a palavra “Taiyo” ainda não fazia parte do nome. Não houve propriamente uma oficialização. O grupo existia, personificado em algumas pessoas, e não havia ainda critérios ou algum padrão estabelecido para que um grupo fosse considerado oficial. Ele simplesmente existia e, de alguma forma, atuava. Assim, todos o reconheciam como tal. E assim foi e, em determinado momento – na liderança do Fernando Gentil (a quem aproveito para render minhas homenagens) – se tornou o melhor Ongakutai do Brasil (opinião que ouvi de inúmeros e insuspeitos líderes da BSGI).
O Gajokai também atuava ativamente, primeiro realizando as atividades do seiri (quando o Sokahan ainda não existia) e, depois, se responsabilizando pelos plantões das sedes regionais. Antes de termos uma sede local, os plantões eram feitos na cidade de Campinas (quando pertencíamos à mesma estrutura organizacional). O Gajokai Ribeirão Preto passou a existir de forma oficial com a inauguração da nossa 1ª sede regional, na rua Paraíso, em julho de 1985.
A atuação do Grupo Cerejeira teve início com 6 pessoas, lá pelos idos de 1972, e a impressão que se tem é que o grupo existiu “desde sempre”, atuando ao lado do Gajokai e, depois, também do Sokahan. Prestativas e bem dispostas, as meninas cuidavam de tudo e de todos.
A Kotekitai nasceu num ensolarado dia 12 de outubro. Era 1986. A reunião inaugural foi na sede da rua Paraiso. A 1ª apresentação oficial foi, salvo engano, no palco do auditório da escola Dom Alberto Gonçalves. Para a ocasião, pintamos um grande e colorido painel que serviu de fundo para a reunião e para a apresentação da então mais nova Kotekitai do mundo.
O Sokahan foi fundado em Ribeirão Preto no dia 3 de maio de 1998. A história será contada um pouco melhor em outra postagem, mas é certo que, mesmo antes da fundação local, muitos dos nossos participavam das atividades em São Paulo como se membros do grupo fossem.
Cada grupo com sua história, tradição, diretrizes, atividades e personalidade próprias e, ao mesmo tempo, como se fossem, juntos, um único grupo. Eram centenas de jovens, espalhados por toda a organização, em dezenas de cidades, sempre prontos a atender quando e onde solicitados. Eram a certeza e a segurança de que tudo seria realizado com sucesso. Não importava se sobre o palco ou nos bastidores, cada qual no seu campo de atuação, com seus desafios pessoais, contribuía dando o seu melhor.
A história escrita pelos indivíduos. E seguindo seu curso. E novas histórias sendo escritas e contadas pelo Taiga, o Núcleo de Desenvolvimento da Orquestra, e quem mais vier pela trilha aberta sem temor.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Meditação muda estrutura do cérebro
Estudo de Harvard mostra, pela primeira vez, que a prática pode aumentar a concentração de massa cinzenta.
De olhos fechados, em silêncio e, de preferência, sentados, os praticantes da meditação plena devem se concentrar em apenas uma coisa: a respiração. A técnica é antiga, da tradição budista, mas começou a ser difundida depois de ter sido usada em um curso não religioso de redução de estresse, criado em 1979 por Jon Kabat-Zinn, professor da Escola Médica da Universidade de Massachussets.
Os benefícios da técnica, conhecida também como “mindfulness”, já foram relatados em vários estudos. A lista vai da melhora de sintomas de esclerose múltipla à prevenção de novos episódios de depressão. Mas, agora, um estudo mostra, pela primeira vez, os efeitos provocados no cérebro por essa meditação. E o mais importante: as mudanças ocorreram em apenas oito semanas de meditação em praticantes adultos iniciantes.
A pesquisa foi feita pela Harvard Medical School, nos EUA, em conjunto com um instituto de neuroimagem da Alemanha e a Universidade de Massachussets.
As conclusões foram feitas após comparações entre as ressonâncias magnéticas dos que praticaram a meditação e as de um grupo-controle que não fez as aulas.
Outros estudos já haviam sugerido que a meditação causa mudanças no cérebro, mas eles não excluiam a possibilidade de haver diferenças preexistentes entre os grupos de meditadores experientes e não meditadores. Ou seja, não era possível afirmar se os efeitos eram causados pela prática.
Todos os participantes da pesquisa, com idades de 25 a 55 anos, deveriam obedecer a um critério: não ter feito nenhuma aula de meditação “mindfulness” nos últimos seis meses ou mais de dez aulas em toda a vida. Eles frequentaram oito encontros semanais, com duração de duas horas e meia. Também foram instruídos a fazer 45 minutos de exercícios diários e a praticar os ensinamentos da meditação em atividades do dia a dia, como andar, comer e tomar banho.
Para avaliar as mudanças, todos os participantes e o grupo-controle fizeram ressonâncias magnéticas antes e depois do período de aulas.
Os exames iniciais não indicaram diferenças entre grupos, mas as ressonâncias feitas após o curso mostraram um aumento na concentração de massa cinzenta no hipocampo esquerdo naqueles que haviam meditado. Análises do cérebro todo revelaram mais quatro aumentos de massa cinzenta: no córtex cingulado posterior, na junção temporo-parietal e mais dois no cerebelo, mudanças que podem significar uma melhora em regiões envolvidas com aprendizagem, memória, emoções e estresse. O aumento da massa cinzenta no hipocampo é benéfico porque ali há uma maior concentração de neurônios.
Antes acreditava-se que a pessoa só perdia neurônios durante a vida. Agora vemos que eles podem brotar em qualquer fase da vida, e determinadas atividades fazem a estrutura do cérebro mudar. Isto significa que o cérebro adulto também é plástico, capaz de ser moldado.
No ano passado, um estudo dos mesmos pesquisadores já mostrava redução da massa cinzenta na amígdala cerebral, uma região relacionada à ansiedade e ao estresse, em pessoas que fizeram meditação por oito semanas. Mas, provavelmente, qualquer um que começar a meditar amanhã terá esses mesmos efeitos benéficos em algumas semanas.
Não é só a meditação que é capaz de mudar a estrutura do cérebro. Outros estudos já mostraram que o aprendizado de novas habilidades podem levar a alterações na massa cinzenta. Essas mudanças não são específicas para a meditação. O cérebro é plástico, muda com tudo que fazemos. Durante a atividade física, por exemplo, são liberadas sustâncias que estimulam o crescimento neuronal. O aprendizado de novos conhecimentos também leva a essa reação.
Em caso de derrames, por exemplo, as regiões adjacentes à lesão podem se moldar para compensar a perda. No entanto, não se sabe se essas mudanças são temporárias. Um estudo afirma que alterações na estrutura do cérebro podem durar apenas algumas semanas. Logo depois, os tecidos voltam ao estado normal. Portanto, para que as modificações durem, o cérebro precisa de constante estímulo.
folha de são paulo – 30/01/2011
reportagem publicada na página c18 (transcrição parcial)
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
O crescimento de qualquer movimento social pressupõe a ação simultânea de 2 forças: uma de expansão e outra de manutenção e/ou consolidação. Expandir sem consolidar é fútil; manter sem expandir é estagnar.
O movimento social que na Soka Gakkai chamamos kossen-rufu implica a ação concomitante dessas 2 forças: o chakubuku (expansão) e a criação de valores (consolidação). É o trabalho constante de aliar quantidade e qualidade.
A expansão numérica de um grupo está, evidentemente, relacionada ao aumento do número de seus componentes. E o aumento somente pode ocorrer se, ao mesmo tempo em que novos membros ingressam no grupo, os atuais permanecem dentro dele. Se a cada um que chega, outro se afasta, expansão não há. Se a cada um que chega, dois se vão, trata-se então de encolhimento. A aritmética é simples e elementar.
Se fixarmos em gráfico o número (mensal, bimestral, trimestral, anual ou qualquer outro período) de membros/famílias por, digamos, 10, 15 ou 20 anos, poderemos traçar uma reveladora linha evolutiva.
Se inserirmos em outro gráfico o número de novos membros/famílias que ingressaram na associação pelo mesmo período de tempo teríamos, então, em meras 2 linhas, dados mais reveladores ainda.
Essas 2 linhas, analisadas em conjunto, podem indicar o que chamamos tendência. Com elas podemos visualizar a que tende o movimento: a crescer? a permanecer estável? a descrescer?
Visualizar a linha evolutiva e identificar as tendências é um exercício interessante e ótimo ponto de partida de qualquer planejamento, seja em termos individuais, seja em questões organizacionais. Podemos estudar e planejar ações para, ao mesmo tempo em que reforçamos as tendências positivas, deter ou reverter as negativas. Certamente, um bom primeiro passo para uma expansão concreta e real.
É fato que, no decorrer dos anos, milhares de pessoas se converteram ao budismo Nitiren e passaram a participar das atividades da Soka Gakkai. É realidade, também, que outras milhares de pessoas desistiram da prática do budismo e das atividades associativas. O que acontece entre essas 2 pontas, a de ingresso e a de saída? É preciso pensar a respeito e, para tanto, é preciso investigar, perquirir, conhecer, ter informações, dados objetivos, coisa que, por si só, é trabalhosa. Além disso, é preciso mais: de posse de tais informações, saber reuni-las adequadamente, analisar de forma isenta, intelectiva e desprovida de suposições. E, mais do que tudo, é preciso coragem, porque sem ela não há como reconhecer a realidade dos fatos e, depois, saber o que fazer com ela.
O movimento social que na Soka Gakkai chamamos kossen-rufu implica a ação concomitante dessas 2 forças: o chakubuku (expansão) e a criação de valores (consolidação). É o trabalho constante de aliar quantidade e qualidade.
A expansão numérica de um grupo está, evidentemente, relacionada ao aumento do número de seus componentes. E o aumento somente pode ocorrer se, ao mesmo tempo em que novos membros ingressam no grupo, os atuais permanecem dentro dele. Se a cada um que chega, outro se afasta, expansão não há. Se a cada um que chega, dois se vão, trata-se então de encolhimento. A aritmética é simples e elementar.
Se fixarmos em gráfico o número (mensal, bimestral, trimestral, anual ou qualquer outro período) de membros/famílias por, digamos, 10, 15 ou 20 anos, poderemos traçar uma reveladora linha evolutiva.
Se inserirmos em outro gráfico o número de novos membros/famílias que ingressaram na associação pelo mesmo período de tempo teríamos, então, em meras 2 linhas, dados mais reveladores ainda.
Essas 2 linhas, analisadas em conjunto, podem indicar o que chamamos tendência. Com elas podemos visualizar a que tende o movimento: a crescer? a permanecer estável? a descrescer?
Visualizar a linha evolutiva e identificar as tendências é um exercício interessante e ótimo ponto de partida de qualquer planejamento, seja em termos individuais, seja em questões organizacionais. Podemos estudar e planejar ações para, ao mesmo tempo em que reforçamos as tendências positivas, deter ou reverter as negativas. Certamente, um bom primeiro passo para uma expansão concreta e real.
É fato que, no decorrer dos anos, milhares de pessoas se converteram ao budismo Nitiren e passaram a participar das atividades da Soka Gakkai. É realidade, também, que outras milhares de pessoas desistiram da prática do budismo e das atividades associativas. O que acontece entre essas 2 pontas, a de ingresso e a de saída? É preciso pensar a respeito e, para tanto, é preciso investigar, perquirir, conhecer, ter informações, dados objetivos, coisa que, por si só, é trabalhosa. Além disso, é preciso mais: de posse de tais informações, saber reuni-las adequadamente, analisar de forma isenta, intelectiva e desprovida de suposições. E, mais do que tudo, é preciso coragem, porque sem ela não há como reconhecer a realidade dos fatos e, depois, saber o que fazer com ela.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
11 de setembro de 2001. O dia da insensatez. Dia que, de fato, marcou o início do século XXI: o maior ataque terrorista da história deixa o mundo perplexo e em estado de choque.
E assim teve início o século XXI: com a marca da barbárie, deixando para trás um século não menos terrível.
Num livro de repercussão, chamado “Era dos Extremos”, o historiador inglês Eric Hobsbawm qualificou o século XX como breve, curto. Segundo ele, o século passado começou e terminou simbolicamente no mesmo lugar: em Sarajevo, quando, em 1914 teve início a Primeira Guerra Mundial e onde, em 1991, começou a chamada “guerra sem fim” ou “guerra sem regras”.
Para Hobsbawm, o curto século XX superou em tudo o que foi registrado até hoje em matéria de violência, com perto de 200 milhões de vítimas de massacres de todo tipo. De fato, do ponto de vista das matrizes históricas e mentais – e não do calendário – o século 20 foi mais curto do que os outros, tendo se iniciado com a Primeira Guerra Mundial, e se encerrado com o esfacelamento do império soviético. Entre essas 2 pontas, a humanidade conheceu o que, sob muitos aspectos, foi o período mais negro de sua história, com as mais sangrentas guerras.
O século 20 será lembrado também por uma mudança espiritual de grande impacto em todos os aspectos da vida humana. Pensadores, escritores e artistas fizeram evaporar certezas que levaram eras inteiras para se solidificar. Coisas concretas como matéria e energia, tempo e distância, se tornaram relativas. Conceitos abstratos como certo e errado, justo e injusto, também foram relativizados. Isso trouxe consequências de alcance extraordinário, e desdobramentos ainda inimagináveis.
Na verdade, desde o século 19 o mundo já vinha convivendo com a destruição das certezas. Darwin já tinha feito o maior dos ataques, à teoria da criação divina. Karl Marx propôs que os fatos da economia constituíam um motor com potência tal que era capaz de determinar o que os homens pensavam, sentiam e desejavam, tirando, de certa forma, o destino humano das mãos dos indivíduos e entregando-o às engrenagens da história.
Na virada do século 19, Freud inovou a forma de pensar a responsabilidade pessoal pelas deficiências humanas. Para ele, o homem não é mau, violento, egoísta ou invejoso exclusivamente por sua própria escolha, mas é levado a esses estados por forças além de seu controle.
E, com Einstein, o mundo ficou sabendo que o tempo podia transcorrer mais depressa ou mais devagar. E que o espaço podia se curvar. O grande marco da relativização como um processo do século 20 pode ser atribuído à Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade, de 1905, comprovada empiricamente logo depois da I Guerra Mundial. Ainda hoje, sua teoria é provada cientificamente a cada dia.
A seleção natural, a revolução de Einstein, o modo marxista de ver o mundo e a análise freudiana combinaram-se para, cada uma à sua maneira, subverter a idéia de que o mundo era um lugar simples, regulado por valores universais e eternos.
Aquele homem do limiar do século 20 e este que agora se encontra ainda no início do novo século são criaturas separadas por incríveis transformações. O primeiro acreditava em verdades absolutas, em códigos morais. O segundo olha tudo isso sob o prisma da dúvida e da incerteza.
Há algo errado com o mundo, que prioriza o desempenho econômico e o poder acima de tudo. Há um crescente reconhecimento de que as pessoas devem ser a prioridade e que o “crescimento humano” é mais importante do que o econômico. Começamos a compreender que em nossas sociedades modernas, em que não vivemos sem celulares, internet e celebridades, e em que somos orientados para o conhecimento com uma explosão de informações, há uma urgente necessidade por uma explosão equivalente de sabedoria para adequar o uso desse conhecimento.
Já adentramos o século 21, e devemos nos perguntar que tipo de século queremos que ele seja afinal. Embora o fim da Guerra Fria tenha derrubado o muro que dividia o Oriente e o Ocidente, a humanidade está longe de esboçar um quadro confiável de paz. As lutas raciais e os conflitos regionais são ininterruptos, o ambiente do planeta continua a se deteriorar, refugiados fogem aos montes do sofrimento e da opressão. A moral e a ética continuam sendo continuamente atacadas e feridas.
A par disso vivemos, cada um de nós, nossos próprios dramas pessoais, anseios, doenças, desamores, inseguranças, tudo somando-se e misturando-se com as das demais pessoas. Estamos, enfim, diante de uma importante encruzilhada, sendo colocados à prova, tanto individual - como pessoa humana - quanto coletivamente - como civilização humana.
É preciso, pois, que decidamos e nos posicionemos. É preciso que respondamos à questão: para onde, afinal, estamos indo?
Tempos de crise. Mais do que nunca, filosofia. E sabedoria. E coragem.
E assim teve início o século XXI: com a marca da barbárie, deixando para trás um século não menos terrível.
Num livro de repercussão, chamado “Era dos Extremos”, o historiador inglês Eric Hobsbawm qualificou o século XX como breve, curto. Segundo ele, o século passado começou e terminou simbolicamente no mesmo lugar: em Sarajevo, quando, em 1914 teve início a Primeira Guerra Mundial e onde, em 1991, começou a chamada “guerra sem fim” ou “guerra sem regras”.
Para Hobsbawm, o curto século XX superou em tudo o que foi registrado até hoje em matéria de violência, com perto de 200 milhões de vítimas de massacres de todo tipo. De fato, do ponto de vista das matrizes históricas e mentais – e não do calendário – o século 20 foi mais curto do que os outros, tendo se iniciado com a Primeira Guerra Mundial, e se encerrado com o esfacelamento do império soviético. Entre essas 2 pontas, a humanidade conheceu o que, sob muitos aspectos, foi o período mais negro de sua história, com as mais sangrentas guerras.
O século 20 será lembrado também por uma mudança espiritual de grande impacto em todos os aspectos da vida humana. Pensadores, escritores e artistas fizeram evaporar certezas que levaram eras inteiras para se solidificar. Coisas concretas como matéria e energia, tempo e distância, se tornaram relativas. Conceitos abstratos como certo e errado, justo e injusto, também foram relativizados. Isso trouxe consequências de alcance extraordinário, e desdobramentos ainda inimagináveis.
Na verdade, desde o século 19 o mundo já vinha convivendo com a destruição das certezas. Darwin já tinha feito o maior dos ataques, à teoria da criação divina. Karl Marx propôs que os fatos da economia constituíam um motor com potência tal que era capaz de determinar o que os homens pensavam, sentiam e desejavam, tirando, de certa forma, o destino humano das mãos dos indivíduos e entregando-o às engrenagens da história.
Na virada do século 19, Freud inovou a forma de pensar a responsabilidade pessoal pelas deficiências humanas. Para ele, o homem não é mau, violento, egoísta ou invejoso exclusivamente por sua própria escolha, mas é levado a esses estados por forças além de seu controle.
E, com Einstein, o mundo ficou sabendo que o tempo podia transcorrer mais depressa ou mais devagar. E que o espaço podia se curvar. O grande marco da relativização como um processo do século 20 pode ser atribuído à Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade, de 1905, comprovada empiricamente logo depois da I Guerra Mundial. Ainda hoje, sua teoria é provada cientificamente a cada dia.
A seleção natural, a revolução de Einstein, o modo marxista de ver o mundo e a análise freudiana combinaram-se para, cada uma à sua maneira, subverter a idéia de que o mundo era um lugar simples, regulado por valores universais e eternos.
Aquele homem do limiar do século 20 e este que agora se encontra ainda no início do novo século são criaturas separadas por incríveis transformações. O primeiro acreditava em verdades absolutas, em códigos morais. O segundo olha tudo isso sob o prisma da dúvida e da incerteza.
Há algo errado com o mundo, que prioriza o desempenho econômico e o poder acima de tudo. Há um crescente reconhecimento de que as pessoas devem ser a prioridade e que o “crescimento humano” é mais importante do que o econômico. Começamos a compreender que em nossas sociedades modernas, em que não vivemos sem celulares, internet e celebridades, e em que somos orientados para o conhecimento com uma explosão de informações, há uma urgente necessidade por uma explosão equivalente de sabedoria para adequar o uso desse conhecimento.
Já adentramos o século 21, e devemos nos perguntar que tipo de século queremos que ele seja afinal. Embora o fim da Guerra Fria tenha derrubado o muro que dividia o Oriente e o Ocidente, a humanidade está longe de esboçar um quadro confiável de paz. As lutas raciais e os conflitos regionais são ininterruptos, o ambiente do planeta continua a se deteriorar, refugiados fogem aos montes do sofrimento e da opressão. A moral e a ética continuam sendo continuamente atacadas e feridas.
A par disso vivemos, cada um de nós, nossos próprios dramas pessoais, anseios, doenças, desamores, inseguranças, tudo somando-se e misturando-se com as das demais pessoas. Estamos, enfim, diante de uma importante encruzilhada, sendo colocados à prova, tanto individual - como pessoa humana - quanto coletivamente - como civilização humana.
É preciso, pois, que decidamos e nos posicionemos. É preciso que respondamos à questão: para onde, afinal, estamos indo?
Tempos de crise. Mais do que nunca, filosofia. E sabedoria. E coragem.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Dentre as muitas histórias que ouvi do sr Abe naquela tarde de sábado em Mombuca, uma ficou especialmente gravada em minha mente.
Ele contou a passagem de quando o sr Eiichi Sago – o primeiro líder da DMJ no Brasil, hoje vice-presidente da BSGI, radicado no Rio de Janeiro - então um jovem, lá esteve em atividades. Na ocasião, levou filmes com orientações e atividades da Soka Gakkai do Japão, e o único lugar com espaço e acomodações adequadas onde poderiam ser exibidos os filmes era a sede comunitária da colônia.
Neste local a Soka Gakkai não entra! – essas foram as palavras que ouviram dos responsáveis do local, ao serem expulsos do prédio, quando lá estiveram para solicitar a cessão do salão social da sede.
Imediatamente imaginei a cena e os sentimentos de humilhação e frustração que deviam ter penetrado no coração de cada um deles.
Anos depois, em 1999, planejávamos realizar um novo show musical em Ribeirão Preto. Cinco anos haviam se passado do histórico show musical de 1994, realizado no Teatro de Arena da cidade. Não sei por quais motivos, o novo show de 1999, cuja realização já tinha sido aprovada, foi cancelado, sem que nossa opinião tivesse sido pedida, e sem nenhuma explicação convincente.
Claro, não ficamos contentes com o acontecido. Afinal, estávamos animados, planejando e preparando o evento, que fazia parte de um plano maior. Insatisfeitos, em conversas entre a liderança da DJ na época, decidimos então que realizaríamos algo no lugar do show cancelado. Só não sabíamos ainda o que. Nossa decisão parece ter tido força para movimentar outras forças e, quando vimos, tínhamos diante de nós a oportunidade de comemorar os 35 anos da BSGI em Ribeirão Preto no exato local em que ela tinha nascido: em Guatapará, no núcleo colonial de Mombuca.
Lembrei-me daquela frase: neste local a Soka Gakkai não entra!
E realizamos com grande sucesso uma atividade extraordinária, com centenas de pessoas se locomovendo de todas as localidades da região para Mombuca, em muitos carros e ônibus.
O sentimento era de agradecimento aos pioneiros. Era a volta para casa.
Dentre os convidados especiais, o presidente da associação local - a mesma da qual nossos veteranos tinham sido expulsos – que, em suas palavras, não poupou agradecimentos e elogios.
E um gostinho especial de vitória: sim, naquele local a Soka Gakkai seria sempre bem recebida!
Ele contou a passagem de quando o sr Eiichi Sago – o primeiro líder da DMJ no Brasil, hoje vice-presidente da BSGI, radicado no Rio de Janeiro - então um jovem, lá esteve em atividades. Na ocasião, levou filmes com orientações e atividades da Soka Gakkai do Japão, e o único lugar com espaço e acomodações adequadas onde poderiam ser exibidos os filmes era a sede comunitária da colônia.
Neste local a Soka Gakkai não entra! – essas foram as palavras que ouviram dos responsáveis do local, ao serem expulsos do prédio, quando lá estiveram para solicitar a cessão do salão social da sede.
Imediatamente imaginei a cena e os sentimentos de humilhação e frustração que deviam ter penetrado no coração de cada um deles.
Anos depois, em 1999, planejávamos realizar um novo show musical em Ribeirão Preto. Cinco anos haviam se passado do histórico show musical de 1994, realizado no Teatro de Arena da cidade. Não sei por quais motivos, o novo show de 1999, cuja realização já tinha sido aprovada, foi cancelado, sem que nossa opinião tivesse sido pedida, e sem nenhuma explicação convincente.
Claro, não ficamos contentes com o acontecido. Afinal, estávamos animados, planejando e preparando o evento, que fazia parte de um plano maior. Insatisfeitos, em conversas entre a liderança da DJ na época, decidimos então que realizaríamos algo no lugar do show cancelado. Só não sabíamos ainda o que. Nossa decisão parece ter tido força para movimentar outras forças e, quando vimos, tínhamos diante de nós a oportunidade de comemorar os 35 anos da BSGI em Ribeirão Preto no exato local em que ela tinha nascido: em Guatapará, no núcleo colonial de Mombuca.
Lembrei-me daquela frase: neste local a Soka Gakkai não entra!
E realizamos com grande sucesso uma atividade extraordinária, com centenas de pessoas se locomovendo de todas as localidades da região para Mombuca, em muitos carros e ônibus.
O sentimento era de agradecimento aos pioneiros. Era a volta para casa.
Dentre os convidados especiais, o presidente da associação local - a mesma da qual nossos veteranos tinham sido expulsos – que, em suas palavras, não poupou agradecimentos e elogios.
E um gostinho especial de vitória: sim, naquele local a Soka Gakkai seria sempre bem recebida!
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Sempre dei muita importância ao registro dos acontecimentos e dos dados. Dados e números são importantes para que possamos entender o que e como as coisas acontecem, para melhorar, visualizar e até mesmo objetivar e planejar com segurança o que ainda vem pela frente.
O avanço se dá quando se vai adiante do ponto que se atingiu até então. É desnecessário ter que percorrer caminhos cometendo os mesmos equívocos ou sacrifícios de quem já passou por ali. É marcha adiante, dali para frente. Por isso, é importante conhecer o que já foi. Aprender com a experiência.
Quem tem informações precisas e sabe analisar dados, quase pode adivinhar o que vai acontecer. Embora possa não parecer, é simples assim. O que não quer dizer que não seja trabalhoso.
Já tive a pretensão de criar algo que pudesse servir como fonte de consulta, informação e inspiração. Algo como um repositório que reunisse fotos, áudios, vídeos, relatórios e outras formas que pudessem servir de arquivo. Dispersas, as informações não tem nenhuma serventia.
Muitas fotos foram tiradas e reveladas, com a esperança de que pudessem ser convenientemente cuidadas. Não sei o fim que tiveram as centenas, talvez milhares de fotos que contavam boa parte de nossa história. As muitas fitas de vídeo-cassete gravadas devem estar totalmente inutilizadas.
Mas a grande perda são as pessoas que viveram a história com suas próprias vidas e que, por falta de interesse ou de cuidado de quem por aqui ficou, se despediram levando junto vivências que nunca mais poderão ser conhecidas ou resgatadas. Pioneiros e veteranos, cujos nomes não é necessário citar, cuja memória não está mais entre nós.
Um dia, anos atrás, quis saber um pouco, diretamente da fonte original. Fui até Mombuca, ouvir e aprender com o sr Takeo Abe, de quem soube histórias extraordinárias de coragem e dedicação, dos primeirissimos primeiros passos dados por aqueles que se puseram a desbravar um caminho, há quase 45 anos.
Ele contou, dentre outras coisas que, em Mombuca, eram apenas 3 ou 4 as famílias que praticavam o budismo Nitiren. Os demais imigrantes da colônia não tinham interesse em ouvi-los, muito pelo contrário. Resolveram, então, sair da colônia, em direção à cidade. Para irem até a estrada a fim de pegar o ônibus, tinham que passar pelas casas das pessoas, que antipatizavam com eles, xingavam e jogavam coisas sujas em suas roupas. Por isso levavam, em bolsas, roupa limpa para se trocarem, quando estivessem mais próximos da estrada.
Geralmente tinham apenas o dinheiro da passagem de ida. Para a volta, levavam produtos que pudessem vender, a fim de comprar a passagem de volta. Nenhum deles falava português, e as primeiras pessoas que procuraram eram outros japoneses que conseguiam encontrar na cidade.
Uma parcela da história, contada assim, rápida e resumidamente, logicamente não vai nunca poder transmitir um mínimo do que foi vivenciar aquilo.
Mesmo para quem pôde ouvir diretamente de quem tinha protagonizado aqueles momentos, é difícil realmente saber a dimensão de tudo aquilo. Mas quando você vê um velho disco de vinil, onde estão gravadas orientações do presidente Toda, em sua própria voz, ou segura um antigo certificado de nomeação assinado pelo presidente Ikeda, você tem uma boa ideia de quanta história está ali, na sua frente. E o brilho do olhar, a força e a vibração da voz, o orgulho com que ele contava tudo aquilo já era, em si, uma riquíssima, inesquecível e excepcional lição de vida, de onde é possível extrair um aprendizado impar que, de alguma forma, também passa a fazer parte de você.
O avanço se dá quando se vai adiante do ponto que se atingiu até então. É desnecessário ter que percorrer caminhos cometendo os mesmos equívocos ou sacrifícios de quem já passou por ali. É marcha adiante, dali para frente. Por isso, é importante conhecer o que já foi. Aprender com a experiência.
Quem tem informações precisas e sabe analisar dados, quase pode adivinhar o que vai acontecer. Embora possa não parecer, é simples assim. O que não quer dizer que não seja trabalhoso.
Já tive a pretensão de criar algo que pudesse servir como fonte de consulta, informação e inspiração. Algo como um repositório que reunisse fotos, áudios, vídeos, relatórios e outras formas que pudessem servir de arquivo. Dispersas, as informações não tem nenhuma serventia.
Muitas fotos foram tiradas e reveladas, com a esperança de que pudessem ser convenientemente cuidadas. Não sei o fim que tiveram as centenas, talvez milhares de fotos que contavam boa parte de nossa história. As muitas fitas de vídeo-cassete gravadas devem estar totalmente inutilizadas.
Mas a grande perda são as pessoas que viveram a história com suas próprias vidas e que, por falta de interesse ou de cuidado de quem por aqui ficou, se despediram levando junto vivências que nunca mais poderão ser conhecidas ou resgatadas. Pioneiros e veteranos, cujos nomes não é necessário citar, cuja memória não está mais entre nós.
Um dia, anos atrás, quis saber um pouco, diretamente da fonte original. Fui até Mombuca, ouvir e aprender com o sr Takeo Abe, de quem soube histórias extraordinárias de coragem e dedicação, dos primeirissimos primeiros passos dados por aqueles que se puseram a desbravar um caminho, há quase 45 anos.
Ele contou, dentre outras coisas que, em Mombuca, eram apenas 3 ou 4 as famílias que praticavam o budismo Nitiren. Os demais imigrantes da colônia não tinham interesse em ouvi-los, muito pelo contrário. Resolveram, então, sair da colônia, em direção à cidade. Para irem até a estrada a fim de pegar o ônibus, tinham que passar pelas casas das pessoas, que antipatizavam com eles, xingavam e jogavam coisas sujas em suas roupas. Por isso levavam, em bolsas, roupa limpa para se trocarem, quando estivessem mais próximos da estrada.
Geralmente tinham apenas o dinheiro da passagem de ida. Para a volta, levavam produtos que pudessem vender, a fim de comprar a passagem de volta. Nenhum deles falava português, e as primeiras pessoas que procuraram eram outros japoneses que conseguiam encontrar na cidade.
Uma parcela da história, contada assim, rápida e resumidamente, logicamente não vai nunca poder transmitir um mínimo do que foi vivenciar aquilo.
Mesmo para quem pôde ouvir diretamente de quem tinha protagonizado aqueles momentos, é difícil realmente saber a dimensão de tudo aquilo. Mas quando você vê um velho disco de vinil, onde estão gravadas orientações do presidente Toda, em sua própria voz, ou segura um antigo certificado de nomeação assinado pelo presidente Ikeda, você tem uma boa ideia de quanta história está ali, na sua frente. E o brilho do olhar, a força e a vibração da voz, o orgulho com que ele contava tudo aquilo já era, em si, uma riquíssima, inesquecível e excepcional lição de vida, de onde é possível extrair um aprendizado impar que, de alguma forma, também passa a fazer parte de você.
sábado, 24 de abril de 2010
O mais antigo núcleo do Taiyo Ongakutai do interior da BSGI é o de Ribeirão Preto – tem 36 anos, é quase um quarentinha.
Não sei de quem foi a iniciativa, como foram os primeiros passos, as primeiras discussões... Quem, afinal, deu o primeiro passo? Ninguém era músico ou entendia de música. Mas que aquela gente era atrevida, isso era. A história do grupo - aliás, como tantas outras - merece registro e, quem sabe, virar um doc.
Eu era ainda criança, quase adolescente. Me lembro de um rapaz, de sobrenome Suzuki (que foi o primeiro responsável de comunidade da DMJ em Ribeirão Preto). Havia outras pessoas que também estavam na empreitada: Anselmo, Eduardo, Wanderley. Algumas fisionomias ainda me são visíveis, mas escapam-me os nomes. Talvez tudo fosse pouco mais que uma brincadeira e eles nem imaginassem no que aquilo poderia se desdobrar mas, certamente, eles têm muitas histórias para contar.
Naquele tempo, nos anos 70, não havia critérios ou procedimentos definidos para a fundação de um grupo horizontal ou de treinamento. Mas a seriedade era sempre muito grande, e sabia-se que, com certeza, o trabalho seria árduo, até que o grupo fosse reconhecido como tal, e pudesse ser chamado por um nome oficial.
As grandes reuniões – grandes para a época, com 100 ou pouco mais participantes – passaram a contar com a animação daquele pessoal com instrumentos musicais. A criançada fazia algazarra durante a reunião toda mas, na hora das canções, todo mundo se aproximava para ouvir. Não importava que música era, e nem se eles sabiam tocar. O que interessava era o barulho daqueles instrumentos que, crianças, nunca tínhamos oportunidade de ver ou ouvir ao vivo.
E, claro, ficávamos sempre rodeando para, num descuido, dar uma mexidinha em alguma coisa.
Tanto rodeei que, numa oportunidade, quando faltou alguém, me deixaram participar, tocando prato. Em outras ocasiões, também dei umas batidas no surdo. E eu queria mesmo era tocar a caixinha. Mas essa tinha titular. E eu ficava torcendo para que, em alguma reunião, ele faltasse, e não tivesse mais ninguém para substitui-lo.
O grupo, na verdade, não era bem uma banda. Tinha um ou dois instrumentos de sopro: um trompete (que na época todo mundo chamava de piston) e um clarinete. O resto era barulho: uma caixinha, um surdo e um prato. E era tudo.
O grupo foi crescendo e se aprimorando e, num determinado momento, já podia ser chamado de Ongakutai. Tinha, então, uma estrutura mínima, com responsável estabelecido oficialmente e o pessoal procurando, de alguma forma, aprimoramento técnico.
Muitos foram os percalços, tendo chegado quase a desaparecer, seja pelas grandes dificuldades, seja por falta de participantes. Graças à paixão e empenho de alguns, acabou por se transformar num grupo extraordinário.
Os anos se passaram, e o desafio de tocar e se apresentar dignamente nas atividades internas foi plenamente alcançado. Mas sair às ruas, representando a BSGI, era um objetivo mais distante. Como não tínhamos nenhuma experiência do tipo, aproveitávamos as oportunidades para assistir e observar como as outras bandas procediam em suas apresentações, tentando assim nos preparar para quando acontecesse.
E um dia aconteceu. Maio de 1988, na cidade de Monte Alto. Estreamos nas ruas de uma cidade. Fomos e demos o recado, com pouca técnica, mas com uma boa dose de coragem. Dois anos depois, junho de 1990, ganhamos as ruas de Ribeirão Preto, finalmente.
Eu era um dos líderes da DMJ e, num determinado momento, me convenci de que o grupo tinha que ter algo assim como uma bandeira que seguisse na frente, abrindo o caminho e anunciando o avanço daqueles jovens bandeirantes. Eu não sabia e nem tinha ideia de onde eram feitas tais coisas –tempos sem Google - mas sabia que, certamente, custavam caro. Baseado em fotos de revistas e do que já tinha visto, coloquei-me a confeccionar um estandarte e flâmulas para os surdos. Ainda me lembro e me vejo naquele dia, andando pelas lojas do centro da cidade, procurando tecidos e materiais que servissem. Eu não sabia nomes de tecidos. Escolhi pelo caimento, textura e cores.
O tecido azul escuro do estandarte – um tipo de feltro - foi colado sobre um suporte de compensado. As letras e o desenho estilizado da asa-símbolo do grupo foram recortados em feltro branco e vermelho, e colados com cola-pano. Atrás, velcro para poder encaixar um pedaço de cano, que pudesse ser segurado por 2 pessoas, uma de cada lado.
As flâmulas – brancas com franjas douradas - também levaram muita cola-pano. As franjas douradas foram costuradas por senhoras da DF. O tecido acetinado, cortado na largura certa para cobrir o surdo, amarrado no meio, na parte de cima do instrumento, e caindo pela frente. Foram feitas 4 flâmulas.
Tudo muito artesanal. Mas até que ficou bonito. Não sei se ainda existem - o estandarte e as flâmulas.
Nunca fui membro oficial do grupo. Mas a partir de então, sempre que a banda se apresentava, eu ia junto, bem à frente, desfilando na forma daquele estandarte azul e das flâmulas brancas.
Não sei de quem foi a iniciativa, como foram os primeiros passos, as primeiras discussões... Quem, afinal, deu o primeiro passo? Ninguém era músico ou entendia de música. Mas que aquela gente era atrevida, isso era. A história do grupo - aliás, como tantas outras - merece registro e, quem sabe, virar um doc.
Eu era ainda criança, quase adolescente. Me lembro de um rapaz, de sobrenome Suzuki (que foi o primeiro responsável de comunidade da DMJ em Ribeirão Preto). Havia outras pessoas que também estavam na empreitada: Anselmo, Eduardo, Wanderley. Algumas fisionomias ainda me são visíveis, mas escapam-me os nomes. Talvez tudo fosse pouco mais que uma brincadeira e eles nem imaginassem no que aquilo poderia se desdobrar mas, certamente, eles têm muitas histórias para contar.
Naquele tempo, nos anos 70, não havia critérios ou procedimentos definidos para a fundação de um grupo horizontal ou de treinamento. Mas a seriedade era sempre muito grande, e sabia-se que, com certeza, o trabalho seria árduo, até que o grupo fosse reconhecido como tal, e pudesse ser chamado por um nome oficial.
As grandes reuniões – grandes para a época, com 100 ou pouco mais participantes – passaram a contar com a animação daquele pessoal com instrumentos musicais. A criançada fazia algazarra durante a reunião toda mas, na hora das canções, todo mundo se aproximava para ouvir. Não importava que música era, e nem se eles sabiam tocar. O que interessava era o barulho daqueles instrumentos que, crianças, nunca tínhamos oportunidade de ver ou ouvir ao vivo.
E, claro, ficávamos sempre rodeando para, num descuido, dar uma mexidinha em alguma coisa.
Tanto rodeei que, numa oportunidade, quando faltou alguém, me deixaram participar, tocando prato. Em outras ocasiões, também dei umas batidas no surdo. E eu queria mesmo era tocar a caixinha. Mas essa tinha titular. E eu ficava torcendo para que, em alguma reunião, ele faltasse, e não tivesse mais ninguém para substitui-lo.
O grupo, na verdade, não era bem uma banda. Tinha um ou dois instrumentos de sopro: um trompete (que na época todo mundo chamava de piston) e um clarinete. O resto era barulho: uma caixinha, um surdo e um prato. E era tudo.
O grupo foi crescendo e se aprimorando e, num determinado momento, já podia ser chamado de Ongakutai. Tinha, então, uma estrutura mínima, com responsável estabelecido oficialmente e o pessoal procurando, de alguma forma, aprimoramento técnico.
Muitos foram os percalços, tendo chegado quase a desaparecer, seja pelas grandes dificuldades, seja por falta de participantes. Graças à paixão e empenho de alguns, acabou por se transformar num grupo extraordinário.
Os anos se passaram, e o desafio de tocar e se apresentar dignamente nas atividades internas foi plenamente alcançado. Mas sair às ruas, representando a BSGI, era um objetivo mais distante. Como não tínhamos nenhuma experiência do tipo, aproveitávamos as oportunidades para assistir e observar como as outras bandas procediam em suas apresentações, tentando assim nos preparar para quando acontecesse.
E um dia aconteceu. Maio de 1988, na cidade de Monte Alto. Estreamos nas ruas de uma cidade. Fomos e demos o recado, com pouca técnica, mas com uma boa dose de coragem. Dois anos depois, junho de 1990, ganhamos as ruas de Ribeirão Preto, finalmente.
Eu era um dos líderes da DMJ e, num determinado momento, me convenci de que o grupo tinha que ter algo assim como uma bandeira que seguisse na frente, abrindo o caminho e anunciando o avanço daqueles jovens bandeirantes. Eu não sabia e nem tinha ideia de onde eram feitas tais coisas –tempos sem Google - mas sabia que, certamente, custavam caro. Baseado em fotos de revistas e do que já tinha visto, coloquei-me a confeccionar um estandarte e flâmulas para os surdos. Ainda me lembro e me vejo naquele dia, andando pelas lojas do centro da cidade, procurando tecidos e materiais que servissem. Eu não sabia nomes de tecidos. Escolhi pelo caimento, textura e cores.
O tecido azul escuro do estandarte – um tipo de feltro - foi colado sobre um suporte de compensado. As letras e o desenho estilizado da asa-símbolo do grupo foram recortados em feltro branco e vermelho, e colados com cola-pano. Atrás, velcro para poder encaixar um pedaço de cano, que pudesse ser segurado por 2 pessoas, uma de cada lado.
As flâmulas – brancas com franjas douradas - também levaram muita cola-pano. As franjas douradas foram costuradas por senhoras da DF. O tecido acetinado, cortado na largura certa para cobrir o surdo, amarrado no meio, na parte de cima do instrumento, e caindo pela frente. Foram feitas 4 flâmulas.
Tudo muito artesanal. Mas até que ficou bonito. Não sei se ainda existem - o estandarte e as flâmulas.
Nunca fui membro oficial do grupo. Mas a partir de então, sempre que a banda se apresentava, eu ia junto, bem à frente, desfilando na forma daquele estandarte azul e das flâmulas brancas.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Abril de 1999.
Iniciávamos os preparativos para participar de um grande encontro nacional da Divisão dos Jovens, programado para outubro, no Centro Cultural Campestre da BSGI.
A princípio seria realizado um festival, transformado depois na Convenção Cultural dos Jovens da BSGI.
Ó viajante!
De onde vens
e para onde irás?
A lua desce
no caos da madrugada,
mas vou andando,
antes do sol nascer,
à procura de luz.
No desejo de varrer
as trevas de minha alma,
procuro a grande árvore
que nunca se abalou
na fúria da tempestade.
Nesse encontro ideal,
sou eu quem surge da terra.
Primavera de 1999.
O nosso “Festival da Chuva”.
Quem estava lá ainda deve se lembrar.
Iniciávamos os preparativos para participar de um grande encontro nacional da Divisão dos Jovens, programado para outubro, no Centro Cultural Campestre da BSGI.
A princípio seria realizado um festival, transformado depois na Convenção Cultural dos Jovens da BSGI.
A então RM Ribeirão Preto ficou com 40 vagas para participação direta, como figurantes – 20 da DMJ e 20 da DFJ. Além disso, nos grupos horizontais, mais 3 participantes do Gajokai, 7 do Sokahan, 20 do Taiyo Ongakutai, 2 do Grupo Cerejeira e 6 da Nova Era Kotekitai, num total de 78 pessoas, distribuídas de tal forma que todas as comunidades/localidades estivessem representadas.
Releio a lista de 78 nomes, lembrando de cada fisionomia. Alguns não vejo há muito tempo. Como estarão eles? Será que ainda se lembram? Sei que alguns nunca mais tornarei a ver.
Nossa reunião de partida foi no dia 17 de abril, na antiga sede regional. Compartilhei com os presentes as lembranças da minha participação no histórico festival de 1984. Fizemos um pacto, entre os participantes, de que nenhum de nós iria: 1. falhar no gongyo e daimoku diários; 2. sofrer acidentes; 3. adoecer. A partir daquele dia nos encontrávamos aos domingos na sede regional, sempre às 18 horas, e juntos orávamos pela vitória de cada um e pelo sucesso da convenção.
Duas semanas depois, dia 2 de maio, foi a reunião geral de partida, reunindo representantes de todo o Brasil no Centro Cultural Campestre. De Ribeirão Preto e localidades foi um grande e ruidoso grupo, vestidos com uma camiseta que preparamos para o evento, com os dizeres BRASIL PRIMAVERA 99 na parte da frente (saudando e antecipando o encontro em outubro) e, atrás, RIBEIRÃO PRETO. Naquele dia fizemos muito barulho.
De abril a outubro vários ensaios e atividades.
No meio do ano, no dia 06 de junho, um show musical comemorando o jubileu de prata do mais velho núcleo do Taiyo Ongakutai do interior da BSGI: o de Ribeirão Preto.
05 de julho. Gongyo matinal com um amigo. Durante 100 dias acordei mais cedo do que de costume e fui à sua casa realizar a oração da manhã, antes de sairmos para o trabalho. Afinal, havíamos feito um pacto de que não falharíamos no gongyo diário.
Agosto, setembro...
16 de outubro, sábado. Ensaio geral e preparativos finais no Centro Cultural Campestre da BSGI. Durante o dia dialoguei por longo tempo com Sadao Kato, o então coordenador da DJ da BSGI.
[Sadao foi meu danshibutyo e, depois, seinembutyo. Ele foi um líder em quem confiei totalmente, sem ressalvas. Tipo raro de pessoa, Sadao estava muito acima de qualquer suspeita. A conversa com ele era sempre olho-no-olho, coisa que nem todo mundo podia fazer.
Um dia, depois dele ter enfrentado e vencido um gravíssimo problema de saúde, já em franca recuperação, dei-lhe um cartão com uma famosa frase de Bertold Brecht: Existem homens que lutam um dia e são bons; existem outros que lutam um ano e são melhores; existem aqueles que lutam muito mais e são muito bons; porém, existem os que lutam toda a vida. Esses são imprescindíveis.
No verso do cartão, escrevi: Nobres são as pessoas, e nobre é a história que elas criam. Obrigado, Sadao. Obrigado por sobreviver. Poucas são minhas realizações, mas ter lutado com você é um dos grandes orgulhos da minha vida. Vençamos, sempre.]
A programação da convenção incluía, naturalmente, suas palavras como coordenador da DJ da BSGI. Ele tinha dito que era seu desejo declamar o famoso poema do encontro do jovem Daisaku Ikeda com Jossei Toda. Disse que sempre quis fazê-lo e a ocasião não poderia ser mais propícia.
A seu pedido auxiliei-o na preparação de seu discurso. Não nos lembrávamos do poema integralmente. Tampouco havia lá material em que pudéssemos pesquisar, nem podíamos ainda recorrer à internet. O socorro veio de um dos grandes colaboradores que tive na DMJ, de quem eu já conhecia a memória prodigiosa: meu amigo Wilson, grande veterano do Sokahan, que recitou o poema sem pestanejar.
Era quase meia noite quando finalizamos tudo.
17 de outubro de 1999, domingo.
A Convenção Cultural dos Jovens da BSGI tem início sob chuva. Nas palavras do sr Eduardo Taguchi, eram os deuses derramando lágrimas de alegria pela reunião de 10.000 bodhisattvas.
Desenrola-se um maravilhoso show musical, com vibrantes e maravilhosas apresentações.
O emocionante juramento dos discípulos.
Seguem-se os cumprimentos dos dirigentes e, finalizando, as palavras do Sadao.
Até hoje lamento o fato de, no momento em que as folhas de papel escaparam de suas mãos, mesmo estando perto e bem atrás dele, não ter tido a presença de espírito de recolher os papéis e, rapidamente, recolocá-los em ordem em suas mãos. Mas ali era o Sadao e, como quem é rei nunca perde a majestade, o papel que ficou em suas mãos foi exatamente a folha com o poema, que foi lido então para 10.000 jovens, ecoando em meio ao Centro Cultural Campestre pela voz vinda direta do coração de um leão.
Releio a lista de 78 nomes, lembrando de cada fisionomia. Alguns não vejo há muito tempo. Como estarão eles? Será que ainda se lembram? Sei que alguns nunca mais tornarei a ver.
Nossa reunião de partida foi no dia 17 de abril, na antiga sede regional. Compartilhei com os presentes as lembranças da minha participação no histórico festival de 1984. Fizemos um pacto, entre os participantes, de que nenhum de nós iria: 1. falhar no gongyo e daimoku diários; 2. sofrer acidentes; 3. adoecer. A partir daquele dia nos encontrávamos aos domingos na sede regional, sempre às 18 horas, e juntos orávamos pela vitória de cada um e pelo sucesso da convenção.
Duas semanas depois, dia 2 de maio, foi a reunião geral de partida, reunindo representantes de todo o Brasil no Centro Cultural Campestre. De Ribeirão Preto e localidades foi um grande e ruidoso grupo, vestidos com uma camiseta que preparamos para o evento, com os dizeres BRASIL PRIMAVERA 99 na parte da frente (saudando e antecipando o encontro em outubro) e, atrás, RIBEIRÃO PRETO. Naquele dia fizemos muito barulho.
De abril a outubro vários ensaios e atividades.
No meio do ano, no dia 06 de junho, um show musical comemorando o jubileu de prata do mais velho núcleo do Taiyo Ongakutai do interior da BSGI: o de Ribeirão Preto.
05 de julho. Gongyo matinal com um amigo. Durante 100 dias acordei mais cedo do que de costume e fui à sua casa realizar a oração da manhã, antes de sairmos para o trabalho. Afinal, havíamos feito um pacto de que não falharíamos no gongyo diário.
Agosto, setembro...
16 de outubro, sábado. Ensaio geral e preparativos finais no Centro Cultural Campestre da BSGI. Durante o dia dialoguei por longo tempo com Sadao Kato, o então coordenador da DJ da BSGI.
[Sadao foi meu danshibutyo e, depois, seinembutyo. Ele foi um líder em quem confiei totalmente, sem ressalvas. Tipo raro de pessoa, Sadao estava muito acima de qualquer suspeita. A conversa com ele era sempre olho-no-olho, coisa que nem todo mundo podia fazer.
Um dia, depois dele ter enfrentado e vencido um gravíssimo problema de saúde, já em franca recuperação, dei-lhe um cartão com uma famosa frase de Bertold Brecht: Existem homens que lutam um dia e são bons; existem outros que lutam um ano e são melhores; existem aqueles que lutam muito mais e são muito bons; porém, existem os que lutam toda a vida. Esses são imprescindíveis.
No verso do cartão, escrevi: Nobres são as pessoas, e nobre é a história que elas criam. Obrigado, Sadao. Obrigado por sobreviver. Poucas são minhas realizações, mas ter lutado com você é um dos grandes orgulhos da minha vida. Vençamos, sempre.]
A programação da convenção incluía, naturalmente, suas palavras como coordenador da DJ da BSGI. Ele tinha dito que era seu desejo declamar o famoso poema do encontro do jovem Daisaku Ikeda com Jossei Toda. Disse que sempre quis fazê-lo e a ocasião não poderia ser mais propícia.
A seu pedido auxiliei-o na preparação de seu discurso. Não nos lembrávamos do poema integralmente. Tampouco havia lá material em que pudéssemos pesquisar, nem podíamos ainda recorrer à internet. O socorro veio de um dos grandes colaboradores que tive na DMJ, de quem eu já conhecia a memória prodigiosa: meu amigo Wilson, grande veterano do Sokahan, que recitou o poema sem pestanejar.
Era quase meia noite quando finalizamos tudo.
17 de outubro de 1999, domingo.
A Convenção Cultural dos Jovens da BSGI tem início sob chuva. Nas palavras do sr Eduardo Taguchi, eram os deuses derramando lágrimas de alegria pela reunião de 10.000 bodhisattvas.
Desenrola-se um maravilhoso show musical, com vibrantes e maravilhosas apresentações.
O emocionante juramento dos discípulos.
Seguem-se os cumprimentos dos dirigentes e, finalizando, as palavras do Sadao.
Até hoje lamento o fato de, no momento em que as folhas de papel escaparam de suas mãos, mesmo estando perto e bem atrás dele, não ter tido a presença de espírito de recolher os papéis e, rapidamente, recolocá-los em ordem em suas mãos. Mas ali era o Sadao e, como quem é rei nunca perde a majestade, o papel que ficou em suas mãos foi exatamente a folha com o poema, que foi lido então para 10.000 jovens, ecoando em meio ao Centro Cultural Campestre pela voz vinda direta do coração de um leão.
Ó viajante!
De onde vens
e para onde irás?
A lua desce
no caos da madrugada,
mas vou andando,
antes do sol nascer,
à procura de luz.
No desejo de varrer
as trevas de minha alma,
procuro a grande árvore
que nunca se abalou
na fúria da tempestade.
Nesse encontro ideal,
sou eu quem surge da terra.
Primavera de 1999.
O nosso “Festival da Chuva”.
Quem estava lá ainda deve se lembrar.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Não, não há um caminho novo.
O que há de novo é o jeito de caminhar.
Thiago de Melo
Houve uma época em que 2001 era um marco distante. Eu era adolescente quando iniciei minha participação nas atividades da Soka Gakkai, no final dos anos 70 e, desde sempre, ouvia falar do dia 3 de maio de 2001. Estávamos ainda no século XX, faltando muito para o século XXI que, enfim, chegou - e está aí, ao nosso redor, a todo vapor.
Vieram os anos 80, 90... e quando 3 de maio de 2001 chegou, eu era consultor da DMJ da então RM Ribeirão Preto. Realizamos uma reunião comemorativa da DJ no auditório da Escola Auxiliadora, palco de muitas realizações especiais.
Naquele dia, em minhas palavras rendi homenagens a 3 jovens companheiros de jornada que não estavam mais conosco: José Welitton de Carvalho Pereira, Renata Araujo e Verônica Fantini.
Welitton faleceu num acidente de moto na cidade de Barretos, onde morava, no dia 16/10/89. Nos preparávamos para realizar o grande festival de 1990. Ele era membro do Taiyo Ongakutai, onde tocava caixinha. Eu atuava como responsável de área. Carreguei-o comigo numa promessa particular de que receberíamos juntos o dia 3 de maio de 2001. Me fiz acompanhar de sua foto em todas as atividades de que participei a partir de então. E, conforme tinha prometido a ele, juntos recebemos o dia 3 de maio de 2001.
Pequenina como era, a gente quase confundia a Renatinha com as crianças do Pompom, de quem ela cuidava na Nova Era Kotekitai. Só não dava para confundir a grandeza e dignidade com que viveu e lidou com suas circunstâncias e dificuldades.
A Verônica era uma princesinha. Talvez ela tenha partido tão cedo porque, tão cheia era de vida que a vida não coube dentro dela. Em sua despedida, presenciei uma das cenas que mais me emocionaram e que até hoje vibra em mim: suas amigas declamando, em lágrimas, o poema “Anjos da Paz”. Anjos se despedindo de anjo.
Naquele 3 de maio de 2001, outra promessa, feita uma década antes, foi cumprida: um reencontro da vitória. No dia 4 de fevereiro de 1990 um grupo especial de pessoas marcou um reencontro para daí a 10 anos. Era o “Grupo da Vitória do Século XXI”. O grupo tinha 3 diretrizes: a primeira era que, no curso dos 10 anos seguintes continuaríamos na prática do budismo; a segunda, que estaríamos nos exercitando no caminho de mestre-discípulo; e a terceira era que nos protegeríamos como companheiros. O reencontro foi celebrado com um almoço. Alguns faltaram, mas a maioria estava lá: nos olhando nos olhos, nos abraçando, orgulhosos de termos sidos capazes de, cada um com seus sabores e dissabores, viver e sobreviver, e chegar tão longe no campo de batalha da vida diária.
Outro reencontro se deu também, este de 5 anos: o dos 10 participantes da I Conferência dos Estudantes Universitários, ocorrido em Brasília, em 1996. Era o “Grupo JK 2001”.
Volto os olhos para trás. Com saudades revejo todos, um a um.
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